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Astrofotografia planetária: primeiros passos
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Skywatcher Star Discovery 150 mm, meu “brinquedinho” novo

 

Acabo de realizar um sonho: comprei um telescópio! Faz dois meses. Mas no primeiro mês só choveu! É “maldição do telescópio novo”, bem conhecida entre os astrônomos amadores. Agora em julho, durante as férias escolares, apesar do frio, quero aproveitar para observar/registrar o céu o máximo que eu puder.

Adquiri um Skywatcher Star Discovery, refletor newtoniano de 150 mm de abertura e 750 mm distância focal. Ele já vem de fábrica com motorização¹ para compensar o movimento de rotação da Terra, permitindo fazer acompanhamento (ou tracking) do astro observado que assim permanece por um longo período sempre dentro do campo de visão do equipamento. E também tem GoTo,  sistema que permite apontar o telescópio automaticamente para qualquer objeto celeste nele já catalogado de fábrica, no hand control (Synscan 4), ou registrado manualmente pelo usuário.

Mas não tem mágica. Nem moleza! No início das observações é necessário realizar o alinhamento, processo manual e meticuloso que “ensina” para o telescópio exatamente onde ele está, ou seja, passa para ele as coordenadas geográficas do local (latitude/longitude) bem como a altitude. Também é preciso informar para o equipamento a data, o horário mais exato possível e para onde fica o norte verdadeiro. Depois disso, para confirmar a sua localização no tempo e no espaço, o equipamento pede para “ver” no céu dois astros conhecidos. Quem está operando a máquina deve apontar o telescópio manual e exatamente para os dois astros, em geral duas estrelas que o próprio software do telescópio sugere. A partir daí o telescópio “sabe” onde está e que dia e horas são. E, como pode calcular e prever as posições dos astros do céu local em tempo real, passa a ajudar na localização de qualquer objeto celeste visível bem como no acompanhamento do mesmo.

O equipamento também pode ser controlado pelo computador usando softwares capazes de simular o céu e que trabalhem com plugin que permita a conexão (por cabo ou sem fio) com o telescópio. Estou usando o Stellarium, opensource e freeware.

Detalhes do equipamento

Adquiri o equipamento com dois propósitos: 1- turbinar os meus cursos de astronomia, que agora também poderão contar com sessões de observação, e 2- aprofundar meu conhecimento e técnica em astrofotografia.

Aqui no blog, por diversas vezes, publiquei fotos de astros feitas por mim. Mas sempre sem telescópio, usando apenas uma câmera digital “normal” com recurso de zoom óptico alto e controle de parâmetros típicos de qualquer equipamento semiprofissional e relativamente barato. Veja neste post, e também neste outro, exemplos do que estou dizendo. Lá embaixo, no rodapé, em Já publicado no Física na Veia!, apresento outros links para posts com mais astrofotografias feitas apenas com câmera digital.

Agora, com telescópio, astrofotografia é outro papo. Até dominar melhor a técnica e saber bem onde e como devo investir mais dinheiro, em vez de uma câmera digital dedicada à astrofotografia, equipamento que pode começar custando R$ 1.500 e ultrapassar fácil a casa dos R$ 10.000,  estou me divertindo com uma webcam Logitech C270 de R$ 100, modelo bastante conhecido entre os astrofotógrafos amadores pela excelente relação custo-benefício. Acima dela, só as tais câmeras dedicadas que, mesmo no mercado de usados, não custam menos do que R$ 1000.

A “gambiarra” consiste em retirar a lente da webcam, expondo o sensor digital da mesma. E adaptar nela um tubo que se encaixe no focalizador do telescópio, sem a ocular. O focalizador do meu telescópio segue o padrão 1,25 polegadas. Uma luva de PVC, de poucos reais, e que tem exatamente 1,25 polegadas, serve (sem querer fazer trocadilho) como uma luva! Confira o resultado na imagem abaixo.

Webcam adaptada. No detalhe, o sensor (sem lente) centralizado na luva de PVC

Neste tipo de adaptação, o espelho primário do telescópio (côncavo, parabólico) vai coletar a luz do astro observado para produzir uma imagem real e bem luminosa que, portanto, pode ser projetada² diretamente sobre o sensor da câmera. É possível, para capturar uma imagem mais ampliada, acoplar no focalizador uma lente chamada Barlow e sobre ela a webcam. A Barlow, em geral, tem um determinado fator de ampliação. A que possuo é uma Barlow 2x que, portanto, dobra o aumento da imagem obtida pela câmera. Existem no mercado Barlows de maior fator de aumento. Mas há sempre que se tomar cuidado com o limite de aumento do equipamento. De nada adianta uma barlow 5x se a óptica do telescópio não dá conta do recado e você obtém uma imagem bastante ampliada mas sem nitidez alguma.

Usando um software de captura, no meu caso o SharpCap (versão gratuita para uso não comercial), dá para controlar a webcam (ou câmera dedicada) e gravar pequenos videos dos astros. Um vídeo nada mais é do que uma sucessão de frames, ou seja, uma sequência de fotos separadas. Se o vídeo foi feito com taxa de 30 frames/s, por exemplo, então a cada segundo teremos 30 frames (ou 30 fotos) registradas. Assim, se gravamos 100 segundos, teremos 3000 frames ou fotos individuais do astro.

Com outro software específico, é possível analisar e escolher de forma automática os melhores frames, descartando as imagens defeituosas e preservando apenas as mais nítidas que, obviamente, são as que mais nos interessam.  Em seguida, o próprio software faz o empilhamento, ou seja, processo que gera a sobreposição perfeitamente alinhada dos melhores frames escolhidos. O resultado final é uma imagem equivalente à longa exposição, rica em detalhes que, mesmo olhando ao vivo na ocular do telescópio, não conseguimos captar com os olhos. Para empilhamento estou usando o AutoStakkert, gratuito, e o mais recomendado pelos astrofotógrafos amadores para este processo importantíssimo para o registro de planetas e também da lua.

AutoStakkert em ação, empilhando imagens de Saturno

Por fim, para fazer o processo de finalização da imagem e que consiste, dentre outras coisas, aplicar a deconvolução, importante algoritmo que recupera detalhes reais de uma imagem a partir de uma foto “borrada”, estou usando o Registax. Ele também é gratuito e, apesar de também fazer o empilhamento, acabou perdendo espaço para o AutoStakkert que, segundo os astrofotógrafos amadores mais experientes, tem se mostrado mais eficiente nesta etapa inicial do pós processamento das imagens. Mas o AutoStakkert não trabalha com deconvolução, etapa que o Registax chama de wavelets. Desta forma, os dois softwares acabaram ficando interdependentes e, na prática, juntos formam uma dupla muito eficiente!

Registax em ação, na finalização de uma imagem de Saturno

Confira abaixo os meus primeiros registros de Júpiter e Saturno usando telescópio com webcam e técnicas de pós processamento via software.

Júpiter e Saturno, registrados separadamente, e montados numa única imagem

No caso de Júpiter e Saturno, por pura inexperiência, não consegui ampliação maior dos planetas. A ampliação poderia entregar para os softwares de empilhamento e finalização mais detalhes dos astros, o que certamente resultaria em imagens muito mais ricas em detalhes. Mas era apenas a segunda vez que eu tentava capturar imagens com a webcam acoplada ao telescópio. Sem as manhas necessárias, quando tentei dobrar o aumento usando a lente Barlow, não consegui ver nada nada tela do notebook.

Amigos astrofotógrafos mais experientes já apontaram possíveis erros e respectivas soluções. Nas próximas capturas, seguindo as dicas, vou tentar acertar na técnica, driblando as dificuldades, visando melhorar a qualidade e ampliação das imagens registradas em vídeo, o que imagino terá reflexo significativo na qualidade final das imagens planetárias. Aguarde!

Mas fica aqui o primeiro registro de astrofotografia planetária de minha vida, válido muito mais pela importância histórica do que pela qualidade ainda baixa perto do que é possível conseguir!

Com a mesma técnica de captura e pós processamento, também fiz registros da lua, nosso satélite natural.

Tratando imagem da Lua com o Registax

Ainda levando uma surra da técnica, coisa típica de principiante, publico abaixo o meu melhor resultado lunar.

Meu primeiro registro lunar

A partir de agora, astrofotografia será assunto ainda mais presente no blog! Se você gosta do assunto e quer saber mais, fique ligado! Se tiver experiência e quiser contribuir com os posts, deixe seus comentários. Será um prazer!

Quero aproveitar o blog e sua audiência para documentar em tempo real a minha curva de aprendizado pessoal. A ideia é ir passando para os leitores do blog interessados em astrofotografia todos os macetes desta área que, embora amadora, evoluiu muito nos últimos anos. Hoje, com pouco investimento mas muita dedicação e softwares dedicados, dá para fazer imagens que antes somente grandes telescópios conseguiam.

No próximo post, em breve, darei uma dica de livro imperdível para quem quer iniciar em astrofotografia. Aguarde!

Encerro o texto agradecendo ao Nei Martins (de Matão, interior de São Paulo) que me vendeu o telescópio e, de brinde , me deu a webcam já adaptada. Comprei um telescópio, ganhei uma câmera e um amigo que também me deu as primeiras dicas de software para astrofotografia! Valeu Nei!


1- O Skywatcher Star Discovery tem montagem altazimutal, configuração que se presta bem para astrofotografia leve, ou seja, da lua e de planetas. Para objetos de céu profundo, como nebulosas e galáxias, a montagem  mais indicada é a equatorial capaz de fazer um acompanhamento bem mais preciso.
2-Lembra da Óptica Geométrica do ensino médio? Somente imagens reais, ou seja, obtidas pelo cruzamento de raios de luz de verdade, podem ser projetadas. Imagens virtuais, obtidas pelo cruzamento de prolongamentos de raios, sem luz de verdade, por razões óbvias, não podem ser projetadas.

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Caçar Pokémons? Ou caçar planetas?
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

pokemon_planetas

Fotomontagem: logomarca original do game onde foram inseridos planetas

 

Chegou ao Brasil, na última quarta-feira (3/agosto), o Pokémon Go, game para dispositivos móveis que rodam os sistemas operacionais Android ou iOS.

O jogo virou “febre mundial”. E aqui no Brasil já era bastante aguardado. É claro que os desenvolvedores se moveram para tornar o game funcional no país  a tempo de pegar carona no agito internacional das Olimpíadas que começam oficialmente hoje.

O aplicativo parece ser divertido. Ele usa o sinal de GPS do dispositivo para saber onde o jogador está. E o que parece ser o mais legal: explora a realidade aumentada, recurso que permite, através da câmera, fundir o mundo real — onde você e eu vivemos — ao mundo virtual — onde supostamente habitam os monstrinhos. A ideia do game é rastrear e encontrar os pokémons que, invisíveis aos nossos olhos, podem ser vistos pela tela do smartphone ou tablet. Assim, os pokémons podem aparecer no sofá da sala da sua casa ou ao lado de um monumento na praça central da cidade. E, uma vez capturados, ficam guardados no Pokédex, uma espécie de cativeiro onde podem ser treinados a fim de que evoluam, exatamente como no desenho animado que deu origem ao jogo.

Nada contra games. Os primeiros, bastante rudimentares, para jogar na TV, surgiram quando eu tinha 18 anos, nos anos 80. Os vi evoluírem. E ficarem cada vez mais realísticos e interessantes. Saltaram para os computadores pessoais. Hoje rodam em smartphones e tablets que são poderosos computadores pessoais portáteis que podemos carregar no bolso. Mas devo me confessar bastante assustado com o desproporcional sucesso do Pokémon Go que está levando adultos à uma verdadeira jornada internacional de infantilização. Se usado como passatempo, com qualquer outra forma de entretenimento, o jogo pode ser divertido e render bons momentos de descontração. Mas parece que, para alguns marmanjos, possivelmente para jovens e até para crianças, o game tem tudo para virar vício. E aí a coisa muda de figura.

Também assusta-me, como educador, o enorme nível de interesse das pessoas, em especial dos jovens, pelos games. Há uma enorme assimetria quando esse interesse é confrontado ao baixíssimo interesse pelos estudos e outras atividades edificadoras e, supostamente, mais relevantes.

Quer um exemplo palpável? Desde o final de julho e ao longo do mês de todo o mês de agosto, logo ao entardecer e no começo da noite, podemos observar simultaneamente e praticamente numa mesma região do céu os únicos cinco planetas visíveis a olho nu: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. E ainda teremos a participação especial da Lua crescente durante alguns dias. Embora espalhados ao redor do Sol, em órbitas não coplanares, vistos daqui da Terra os planetas estarão mais ou menos alinhados. Para quem nunca viu ou reconheceu um planeta a olho nu, a experiência é marcante. E divertida. Tanto quanto um game. Mas, apesar de várias matérias que divulgaram o fenômeno, não tenho visto muita gente gastando energia para virar o pescoço ligeiramente para cima com a intenção de olhar o céu ao final da tarde.

A astronomia, dentre outras tantas, perde feio para os  Pokémons! E olha que, para ver os planetas, nem é preciso ter smartphone ou tablet. Você sequer precisa instalar um aplicativo. Basta procurar um lugar com bom horizonte oeste, exatamente do lado que o Sol se põe, preferencialmente longe das luzes da cidade, e esperar o dia escurecer. E lá estarão os cinco planetas, quase fazendo pose e aguardando o seu olhar ou, quem sabe, um clique fotográfico.

Se quiser brincar com planetas e mais o recurso da realidade aumentada, assim como no Pokémon Go, existem aplicativos que permitem apontar um dispositivo móvel para o céu e ver, em tempo real, pela tela, os nomes dos astros. Um deles, bastante famoso no mundo do iOS, é o Sky View.

Ao contrário do game, típico do mundo fast food aceleradíssimo em que vivemos, observar o céu é um momento tipicamente slow, de contemplação e introspecção. Deve ser divertido caçar pokémons. Não sei dizer porque ainda não o fiz. Mas devo confessar que, quando posso, bato uma bolinha no computador no Fifa 2014 (ainda não o atualizei o game para versão mais recente). Mas precisamos tirar o pé do acelerador! Relaxar. Ligar menos as telinhas dos dispositivos móveis e olhar mais para o céu, o que é sempre relaxante e muito instigante.

Que continuem as caçadas aos pokémons! Ratifico: nada contra os games. Mas que, para equilibrar a balança, as pessoas, em especial as crianças e os jovens, cada vez mais saiam a campo para caçar planetas e outros astros!

 

Simulações

Para ajudá-lo na astro caçada aos cinco planetas que segue pelo mês de agosto, confira abaixo as simulações do céu para o horário das 18h45min desde hoje, 5 de agosto até o próximo dia 20 de agosto. Embora as simulações tenham sido feitas para a minha cidade, São João da Boa Vista, interior de São Paulo, elas dão uma boa ideia da configuração dos astros para qualquer observador ao longo de todo o território brasileiro. Somente o tempo exato das observações é que deve mudar ligeiramente dependendo da latitude/longitude do observador.

Se preferir fazer as suas próprias simulações para o céu da sua exata localização, o que é ainda mais divertido, instale o Stellarium, planetário gratuito e de código aberto.

Boas observações. E céu limpo a todos!

 

5/agosto/2016 – 18h45min

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Simulação do céu para 5/agosto/2016. Clique para abrir versão maior.

6/agosto/2016 – 18h45min

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Simulação do céu para 6/agosto/2016. Clique para abrir versão maior.

7/agosto/2016 – 18h45min

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Simulação do céu para 7/agosto/2016. Clique para abrir versão maior.

8/agosto/2016 – 18h45min

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Simulação do céu para 8/agosto/2016. Clique para abrir versão maior.

9/agosto/2016 – 18h45min

5planetas_9agosto2016

Simulação do céu para 9/agosto/2016. Clique para abrir versão maior.

Para as demais datas, clique nos links abaixo:

10/agosto11/agosto12/agosto13/agosto14/agosto15/agosto16/agosto17/agosto18/agosto19/agosto20/agosto |

 


Para saber mais sobre o Pokémon Go

  • Matéria do UOL Tecnologia: “Entenda a realidade aumentada, recurso por trás do sucesso de Pokémon Go”

Já publicado no Física na Veia!


Show de astros na(s) próxima(s) madrugada(s)
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

5jan2016_show_astros

simulação do céu na próxima madrugada 5/janeiro/ 2016, por volta de 4h30min, horário de Brasília

 

A imagem acima é uma simulação do céu da próxima madrugada (5 de janeiro de 2016, por volta de 4h30min, horário de Brasília). Usei latitude/longitude da minha cidade, São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Mas, com razoável aproximação, a cena vale para todo o território nacional, com pequenas diferenças de altura dos astros em relação ao horizonte para diferentes latitudes de norte a sul do nosso país. Fiz tudo no Stellarium, software freeware e opensource que sempre recomendo para quem quiser começar a brincar com simulações do céu. Ele roda em várias plataformas, inclusive em dispositivos móveis.

Note que, num único cenário, teremos vários astros para observarmos: quatro planetas do Sistema Solar (Saturno, Vênus, Marte e Júpiter), o nosso satélite natural (Lua), um cometa (C/2013 US10 Catalina) e uma estrela gigante vermelha bastante importante (Antares, na constelação de Escorpião).

Duvido muito que verei alguma coisa. Aqui no interior de São Paulo o céu tem ficado nublado a maior parte do tempo. E tem chovido bastante. De qualquer maneira, vou madrugar para tentar ver/fotografar a linda cena astronômica recheada de astros importantes.

Tente observar/registrar o céu você também! Não é todo dia que temos tantos astros “fazendo pose pra foto”.

Não é difícil observá-los. Tudo acontece em torno do ponto cardeal leste (L), onde o Sol vai nascer. Se você não tem muita intimidade com o céu, siga os passos a seguir. Não tem erro!

I) Encontre a Lua [1], a referência mais óbvia. Atente para o fato de que ela está na fase minguante e, nesse momento, ainda é só uma casquinha;
II) Logo abaixo da Lua, se o céu estiver limpo, você verá Vênus, um ponto bem brilhante de aparência estelar;
III) À direita da Lua e um pouco mais para baixo, mais perto do horizonte, quase ao lado de Vênus [2], você verá um ponto bem avermelhado. É Antares [3], uma estrela gigante vermelha (alfa da constelação de Escorpião). Ela fica a pouco mais de 600 anos-luz da Terra. Enorme e massiva, ela tem pouco mais de 15 massas solares distribuídas numa esfera equivalente a 700 diâmetros solares ;
IV) Logo abaixo de Vênus você verá Saturno, um pontinho de aparência estelar, bem menos brilhante do que Vênus;
V) Agora comece por Saturno e vá “ligando os pontos” de baixo para cima: Saturno, Vênus, Lua, Marte (um ponto bem alaranjando) e, bem mais para cima, Júpiter;
VI) Pra finalizar, a parte mais complicada: tentar encontrar e observar o cometa. A olho nu nem pensar! É preciso pelo menos um binóculo. Comece pela Lua e dirija o seu olhar para a esquerda. Arcturus, estrela alfa da constelação do Boieiro, a quarta estrela mais brilhante do céu noturno, será um ponto de destaque no cenário. Não é difícil encontrá-la. Ela é a principal referência para localizar o cometa que estará ali visualmente bem pertinho, um pouco mais para a esquerda e para baixo. Paciência. E céu muito limpo. São duas condições muito importantes, especialmente na tentativa de ver o cometa.

 

Curiosidade 1 (alinhamento aparente de astros)

O fato mais curioso da cena astronômica é que os quatro planetas e mais a Lua estarão praticamente alinhados no céu. Na simulação lá no topo do post desenhei uma linha tracejada em amarelo que parte de Saturno e chega em Júpiter. Incrivelmente, ela também passa por Vênus e passa raspando pela Lua e por Marte. Isso prova o quase alinhamento aparente desses cinco astros!

Por que esses astros estarão tão próximos no céu? É sempre divertido, além de interessante exercício de raciocínio geométrico tridimensional, tentar entender o que vemos no céu. Lembre-se de que o que vemos é sempre do ponto de vista terrestre. Temos que nos imaginar sobre o globo da Terra, olhando os demais astros fora dela.

A simulação abaixo, feita com o Solar System Scope (que roda on line e também é gratuito), nos ajuda a entender.

5jan2016_Terra_Lua_Venus_Marte_Jupiter_Saturno

Simulação (propositalmente fora de escala) da posição dos astros do Sistema Solar.

 

Comece pela Terra. É nela que estamos. Imagine que da Terra ainda não vemos o Sol que estará abaixo do horizonte. Daqui do nosso planeta, olhando para o céu ainda escuro, poderemos ver Saturno, Vênus, Marte e Júpiter, quase alinhados e nessa ordem. Só que, pela nossa posição na Terra, os veremos “de baixo para cima”. A Lua, na mesma visada, vai aparecer entre Vênus e Marte.

É interessante observar que os astros estão a distâncias muito diferentes a contar da Terra. A Lua, astronomicamente falando, está quase “grudada” na Terra. Saturno é o mais distante de todos. Mas os nossos olhos, junto com o cérebro, não têm como determinar essas distâncias. Acabamos tendo a impressão de que todos os astros estão numa mesma superfície, a esfera celeste, uma esfera imaginária e negra que envolve a Terra que corresponde ao seu centro geométrico.

Importante: na simulação acima os astros estão propositalmente em tamanho exagerado e fora de escala. Ok? O aplicativo permite, se você quiser, deixar os astros em tamanho real. Só que, para que apareçam todos numa mesma cena, eles acabam ficando pontuais. Acho mais bacana assim, apesar de irreal.

 

Curiosidade 2 (encontro aparente de Vênus e Saturno)

Nas próximas madrugadas, como os quatro planetas têm movimento ao redor do Sol e a Lua ao redor da Terra, o alinhamento de astros vai se desfazendo aos poucos. A Lua, além de mudar sua posição aparente no céu, vai ficando cada vez mais iluminada.

O “alinhamento” de astros é na próxima madrugada. Mas ainda dá para vê-los numa mesma cena, em posições diferentes das que destaquei acima, por mais alguns dias.

Um fato notável é que Vênus e Saturno terão uma incrível aproximação aparente no céu. Entre os dias 8 e 9 de janeiro eles ficarão “grudadinhos”. vale a pena observar e até fotografar a cena. As simulações abaixo, feitas com o Stellarium, mostram exatamente o que vai acontecer.

8e9jan2016_Venus-Saturno

Simulação da aproximação aparente entre Vênus e Saturno.

O cometa “passa” só na próxima madrugada?

Cometas não passam no céu. Não conseguimos, daqui da Terra, perceber o seu movimento em tempo real, a não ser usando instrumentos potentes. Cometas, a olho nu, com binóculos ou telescópios pequenos, são vistos como se estivessem parados no céu. Apenas com o passar de algumas horas é que podemos perceber que, movendo-se ao redor do Sol, o cometa também mudou de posição em relação ao fundo fixo de estrelas. Mesmo de um dia para outro, ao longo de 24h, essa mudança é bem sutil.

Vale lembrar que nesse momento o cometa C/2013 US10 (Catalina) está no limite observacional daqui do hemisfério sul do planeta. Ele ficará visível para nós por mais uns dias. Mas já está bem baixo, ou seja, bem perto do horizonte. Sua observação, que já é complicada, ficará cada vez mais difícil. Creio que não temos mais do que uns três ou quatro dias para tentar vê-lo com binóculo. Uma semana talvez, bem no limite! Aproveite! Depois disso, para vê-lo, só do hemisfério norte.

____________

Tente as suas próprias observações. E deixe comentários nos contanto como foi a experiência astronômica!

Bons céus a todos! Se eu conseguir fotografar, posto as imagens por aqui.


Minhas imagens
[atualizado em 5/janeiro/2016 ~16h30min]

Milagrosamente, o céu nublado limpou no começo da madrugada e pude observar os astros e fotografá-los a partir das 4h30min. Havia uma névoa baixa sobre a serra, que atrapalhou um pouco. Mas consegui ver todos os astros a olho nu, exceto o cometa.

Confira abaixo a cena completa. Consegue identificar cada um os astros?

A cena completa, como na simulação.

A cena completa, como na simulação.

A mesma imagem, agora legendada. Nela, pelo tempo de exposição ainda pequeno, além de baixo ISO, o cometa não foi registrado. Apenas Arcturus aparece bem brilhante, exatamente como vemos a olho nu.

5jan2016_astros-na-madrugada_L

A cena completa, agora legendada.

Para capturar os planetas, usei um tempo de exposição maior, embora insuficiente para registrar o cometa. Como a Lua reflete bastante luz solar, ela não saiu no formato minguante e mais parece uma estrela gigante no céu. Para capturar a Lua (relevo e sutilezas de iluminação) é preciso ajustar melhor o tempo de exposição que não pode ser tão longo.

Mostro uma imagem da Lua mais abaixo. Antes, o mais complicado de tudo: o registro do cometa. Na imagem abaixo, com zoom de 30X na constelação do Boieiro, vemos um ponto bem brilhante que é certamente a estrela Arcturus. O cometa é um dos outros pontos. Mas qual? Confesso que nem com binóculo consegui ver cauda, o que seria uma boa assinatura para o astro. Mas, pela sobreposição da simulação com a imagem real obtida fotograficamente, “acho” que o C/2013 US10 (Catalina) é aquele pontinho indicado pela seta verde.

Zoom na constelação do Boieiro. O cometa parece ser aquele pontinho destacado pela seta verde.

Zoom na constelação do Boieiro. O cometa parece ser aquele pontinho destacado pela seta verde.
O outro ponto, bem mais brilhante, é a estrela Arcturus (alfa do Boieiro).

Pra finalizar, imagem em zoom da Lua Minguante. Ajustando os parâmetros da câmera dá pra registrar perfeitamente bem a “casquinha característica da Lua Minguante”. E, embora bastante tênue,  também podemos ver a parte da Lua não iluminada diretamente pelo Sol e que deveria ser escura. É a luz cinérea! Dá para perceber?

A Lua Minguante e a luz cinérea.

A Lua Minguante e a luz cinérea.

Assim como a Lua reflete a luz do Sol sobre o globo terrestre, criando o luar que bem conhecemos e que deixa as nossas noites menos escuras, a Terra também reflete a luz do Sol que ilumina indiretamente o globo lunar, criando por lá efeito análogo. Se você estivesse na Lua, na porção não iluminada pelo Sol, estaria em plena noite lunar. Ao olhar para o céu, veria o planeta Terra como uma bola azul “boiando” contra o fundo negro e emanando uma luz que, assim como o luar, deixaria a sua noite lunar menos escura. Eu acho esse fenômeno simplesmente lindo! E você?


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Planetas na madrugada fazendo pose para foto
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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Vênus (V), Júpiter (J) e Marte (M) registrados na madrugada de hoje (sábado, 17/outubro/2015)
Crédito: Dulcidio Braz Jr (Física na Veia!)

 

Nos próximos dias, qualquer pessoa que tenha pique para pular da cama mais cedo, pouco antes do Sol nascer, poderá olhar para o céu de madrugada e ver quatro planetas em aproximação aparente. E o melhor de tudo: não vai precisar de nenhum instrumento especial. Bastam os olhos para contemplar a bela cena!

É só olhar um pouco acima do horizonte leste, onde o Sol estará para nascer, e procurar por Vênus, um ponto de aparência estelar e bem brilhante. Depois de encontrá-lo (e é bem fácil porque ele destaca bastante no céu), logo abaixo você verá outros dois pontinhos bem próximos entre si. O mais brilhante deles, à direita, é Júpiter. E o mais fraco, mas bem alaranjado, é Marte. Mercúrio é o mais difícil de ver/encontrar dentre os quatro. Ele estará mais abaixo ainda, bem perto do horizonte, e vai aparecer como um pontinho muito sutil.

Com o passar dos dias, as posições relativas dos planetas vão mudar sutilmente. E por isso, para ajudar nas suas observações, fiz simulações do céu aberto, horizonte leste, para as próximas madrugadas. Usei a latitude e a longitude de São João da Boa Vista, interior de São Paulo, onde moro. Sem muito rigor, mas com razoável aproximação para o propósito de apenas observar o céu, as simulações valem para todo o território brasileiro.

“Se” o céu estiver bem limpo, é show garantido! Astronomia óptica tem essa louca dependência das condições climáticas…

Tentei registrar o fenômeno na madrugada de hoje. Mas o céu estava parcialmente nublado. Consegui a imagem acima onde Marte quase sumiu por trás das nuvens que, para piorar, “mataram” o seu tom alaranjado característico.

 

Simulações

As simulações abaixo foram feitas com a versão Windows do software Stellarium que é gratuito e de código aberto.  Você também pode baixá-lo e se divertir simulando o céu para a sua localidade. Tem versão para outros sistemas operacionais.

17/outubro/2015 – sábado de madrugada

planetas_simula_17outubro2015

18/outubro/2015 – domingo de madrugada

planetas_simula_18outubro2015

19/outubro/2015 – segunda-feira de madrugada

planetas_simula_19outubro2015

20/outubro/2015 – terça-feira de madrugada

planetas_simula_20outubro2015

21/outubro/2015 – quarta-feira de madrugada

planetas_simula_21outubro2015

 

A montagem abaixo destaca os planetas Vênus, Júpiter e Marte, agora vistos com mais zoom. A ideia é mostrar Júpiter e Marte um pouco mais separados já que, visualmente, estão bem próximos no céu. Nas simulações acima, em o céu mais aberto, os dois pontinhos se confundem. Clique na imagem para abrir versão maior.

planetas_simula_17-18-19-20_outubro2015

 

Tente as suas próprias observações e depois deixe o seu comentário aqui no blog. Não se preocupe tanto com exatidão da hora da observação (vale lembrar que estaremos em horário de verão, ou seja, com o relógio adiantado em uma hora). Basta olhar para o céu, pouco antes do Sol nascer, logo acima do horizonte. E do lado leste, onde o Sol aparece. Ok?

Entendendo o fenômeno

planetas_outubro_solarsystemscope_exagerado

Simulação não realística da posição atual dos astros do Sistema Solar feita com o Solar System Scope.

A imagem acima é uma simulação feita on line pelo SolarSystemScope.com. Nela, propositalmente, todos os astros (Sol e planetas) estão fora de escala e exageradamente grandes. É que o software tem a opção de escolher entre uma visão realística ou uma visão exagerada mas que privilegia a beleza das esferas planetárias e da nossa estrela, o Sol.

A visão realística você confere na imagem abaixo. Cientificamente, é a mais correta e, portanto, a melhor. Mas, cá entre nós, é mais “feia” pois esconde a beleza de cada um dos astros.

planetas_outubro_solarsystemscope_realistico

Simulação realística da posição atual dos astros do Sistema Solar feita com o Solar System Scope.

Seja pela imagem mais bonita (e não realística) ou pela imagem mais feia (mas cientificamente mais correta), note que, vistos da Terra, os planetas Vênus, Júpiter e Marte estão praticamente alinhados com a Terra. Isso quer dizer que, para um observador terrestre, esses planetas estarão praticamente na mesma linha de visada, ou seja, vão aparecer no céu como pontinhos visualmente próximos embora, na prática, estejam bem afastados uns dos outros.

Mercúrio, o “menos alinhado” de todos, não está muito longe da linha imaginária que parece ligar os outros planetas. Dessa forma, também estará no céu praticamente na mesma região, apenas um pouco desgarrado do grupo formado por Vênus, Júpiter e Marte.

Entendeu?

Bom céu para você nos próximos dias. Boas observações! 

E mais uma coisa: se eu conseguir mais fotos nas próximas madrugadas, preferencialmente sem nuvens, posto aqui. Combinado?


Galeria com minhas imagens

19/outubro/2015 – segunda-feira de madrugada

Ontem, domingo, 18/outubro, o céu estava bastante nublado. Não deu para ver nada. Mas hoje deu uma limpada. E consegui uma imagem um pouco melhor por volta das 6h, horário de verão. Não consegui ver/fotografar Mercúrio que, imagino, estava sendo ofuscado pela tênue luz avermelhada do Sol nascente e uma névoa baixa logo acima da serra.

planetas_foto_19outubro2015

Vênus, Júpiter e Marte registrados na madrugada de 19 de outubro de 2015.
Crédito: Dulcidio Braz Jr (Física na Veia!)

 

20/outubro/2015 – terça-feira de madrugada

O céu de hoje estava bem parecido com o de ontem. Ligeiramente nublado e com uma névoa bem baixa, logo acima da serra, que não me deixou (novamente) ver Mercúrio. Mas consegui um melhor registro de Vênus, Júpiter e Marte, sobre a cidade acordando, por volta das 5h45min (horário de verão). Confira abaixo em duas imagens: a primeira mais aberta, mostrando a paisagem, as luzes do bairro e os planetas no céu, e segunda mais fechada, com zoom, destacando os três astros no céu que já estava começando a clarear.

Vênus, Júpiter e Marte registrados na madrugada de 19 de outubro de 2015. Crédito: Dulcidio Braz Jr (Física na Veia!)

Vênus, Júpiter e Marte sobre o meu bairro na madrugada de 20 de outubro de 2015.Crédito: Dulcidio Braz Jr (Física na Veia!) 

Vênus, Júpiter e Marte registrados na madrugada de 19 de outubro de 2015. Crédito: Dulcidio Braz Jr (Física na Veia!)

Vênus, Júpiter e Marte na madrugada de 20 de outubro de 2015, com zoom.Crédito: Dulcidio Braz Jr (Física na Veia!) 


Já publicado no Física na Veia!


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