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Blog Física na Veia

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Hoje tem eclipse lunar parcial visível no Brasil!

Prof. Dulcidio Braz Júnior

16/07/2019 03h33

Registro fotográfico que fiz do eclipse lunar total de 16 de agosto de 2008 (arquivo pessoal)

 

Hoje, 16 de julho de 2019, poderemos acompanhar daqui do Brasil um eclipse lunar parcial. Quando a Lua Cheia nascer, pouco antes das 18 h, ela já estará com a aparência de ter levado uma "mordida", ou seja, com uma parte do seu disco mergulhado dentro do cone de umbra (ou sombra) da Terra por conta da iluminação solar.

Vale lembrar que num eclipse lunar a Terra se posiciona entre o Sol e a Lua. Assim, a sombra da Terra, projetada sobre a Lua Cheia, cria a sensação de uma "mordida" no disco lunar. Quando a Lua entra completamente no cone de sombra da Terra, momento em que deveria desaparecer por completo, ocorre um capricho cósmico que envolve a refração da luz solar na atmosfera da Terra que torna a Lua Cheia bem avermelhada. Explico este fenômeno em detalhes neste post caso seja do seu interesse aprofundar o tema. Mas hoje, infelizmente, não o veremos. O eclipse será apenas parcial.

Já num eclipse solar, é a Lua quem se posiciona entre o Sol e a Terra. Desta forma, o cone de sombra da Lua iluminada pelo Sol pode ser projetado sobre a Terra o que, para observadores privilegiados, situados numa pequena faixa da superfície terrestre, significa a tapar o disco solar por completo.  Se quiser saber mais sobre eclipses solares, aprofundo o tema neste post.

Tivemos um eclipse solar no último dia 2 de julho, há exatos 14 dias. A totalidade do eclipse pode ser vista de alguns pontos da Argentina e do Chile. Aqui no Brasil este eclipse solar foi parcial, com a Lua tapando somente uma fração do disco solar. Falei sobre este eclipse neste post. E neste outro tentei uma cobertura astrofotográfica, infelizmente frustrada pelas nuvens que tomaram conta do céu na minha cidade. Mais abaixo explico porque é comum termos dois eclipses consecutivos e separados por 14 dias, sendo sempre um solar e outro lunar.

 

O que eu preciso para observar o eclipse lunar?

Você só vai precisar de céu limpo. E procurar pela Lua Cheia que nasce pouco antes das 18 h. Ao contrário do Sol, cuja observação pode ser perigosa, especialmente se tentar usar binóculos, lunetas/telescópicos ou qualquer instrumento que concentre a já intensa luz solar, a observação lunar não oferece nenhum risco.

É claro que se você tiver um binóculo ou uma pequena luneta que permita ampliar a Lua Cheia, a experiência pode ser mais divertida. Mas, mesmo a olho nu, o fenômeno já é bem bacana.

A cronologia do eclipse lunar parcial de hoje, para o horário oficial de Brasília, você confere no caprichoso Astro Card abaixo de autoria do astrônomo prof. Irineu Gomes Varella.

Cronologia do eclipse lunar parcial (Autor: prof. Irineu Gomes Varella)

 

Ratificando o que eu já disse lá no começo do texto e agregando os dados que podemos tirar da imagem do prof. Irineu logo acima, a Lua Cheia já vai nascer parcialmente eclipsada, pouco antes das 18 h. Poderemos acompanhar um ligeiro aumento da "mordida" lunar até às 18h31min, o ápice do fenômeno. Daí para frente, a Lua Cheia vai sair gradativamente do cone de umbra da Terra, fazendo com que a "mordida" fique cada vez menor, etapa do eclipse que vai durar até às 20 h. Depois disso a Lua vai transitar pelo cone de penumbra, até sair dele. Mas esta etapa, a olho nu, é praticamente imperceptível pois corresponde a uma ligeira queda na intensidade do brilho lunar.

Portanto, vale a pena acompanhar o fenômeno astronômico desde o nascer da Lua Cheia até por volta da 20 h. Este período é o "filé" do eclipse. Fica a dica!

 

Por que não temos um eclipse solar e outro lunar a cada mês?

A órbita da Lua ao redor da Terra está num plano inclinado em relação ao plano da órbita da Terra ao redor do Sol. Isso torna o alinhamento dos três astros algo bem mais raro.

 

Esta é uma questão fundamental em Astronomia! Acompanhe o raciocínio a seguir.

Como podemos ver na ilustração logo acima, a Lua orbita a Terra enquanto a Terra orbita o Sol.

A Lua completa uma volta em torno do nosso planeta a cada 28 dias (aproximadamente) enquanto a Terra completa uma volta no Sol a cada 365 dias (aproximadamente).

Desta forma, se num certo dia a Lua estivesse posicionada exatamente entre o Sol e a Terra, o que chamamos de Lua Nova¹ (LN), teríamos um eclipse solar. 14 dias depois, com a Lua dando meia volta em torno da Terra, seria a Terra que ficaria posicionada entre o Sol e a Lua, agora com a face 100% iluminada voltada para o nosso planeta, o que classificamos como Lua Cheia² (LC). Poderíamos ter nesta data um eclipse lunar.

E 14 dias adiante a Lua voltaria a se posicionar entre o Sol e a Terra, propiciando outro eclipse solar. Mais 14 dias, nova meia volta da Lua na Terra, e poderíamos ter outro eclipse lunar. E assim sucessivamente.

Mas não é isso o que acontece na prática. Sabemos que não temos eclipses solares e lunares e com esta frequência. Por que?

Note, na ilustração acima, um incrível detalhe que faz toda a diferença: o plano da órbita da Lua ao redor da Terra não coincide com o plano da órbita da Terra ao redor do Sol. Existe uma inclinação de 5,2 graus entre eles. Desta forma, só temos alinhamentos quase perfeitos Sol-Lua-Terra ou Sol-Terra-Lua quando os três astros se encontram na (ou perto da) linha dos nodos, intersecção dos planos da órbita da Lua ao redor da Terra e da Terra ao redor do Sol.

Por isso é comum termos um eclipse solar e outro lunar separados por 14 dias, como o eclipse solar de 2 de julho e este lunar de hoje, 16 de julho, 14 dias depois. Neste período de duas semanas não dá tempo dos astros se afastarem muito da linha dos nodos, o que permite a ocorrência dos dois eclipses consecutivos, um solar e outro lunar. Às vezes o eclipse solar ocorre primeiro, como desta vez. Noutras é o eclipse lunar quem vem primeiro.

Deu para entender a ideia?

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Tente observar o eclipse lunar de hoje. Avise aos amigos e parentes. Vale a pena. Vou tentar observar e fotografar. Se obtiver bons resultados, posto aqui.

Bons céus a todos!

Abraço do prof. Dulcidio! Física e Astronomia na veia, com excelentes observações!


¹ Na Lua Nova a face do nosso satélite natural voltada para a Terra está totalmente escura porque a Lua está sendo retroiluminada pelo Sol.
² Na Lua Cheia a face do nosso satélite natural voltada para a Terra está totalmente iluminada.


 

Já publicado no Física na Veia!

Sobre o autor

Dulcidio Braz Jr é físico pelo IFGW/Unicamp onde atuou como estudante e pesquisador no DEQ – Departamento de Eletrônica Quântica no final dos anos 80. Mas foi só começar a lecionar física para perceber que seu caminho era o da educação. Atualmente, além de professor, é autor de material didático pelo Sistema Anglo de Ensino / Somos Educação e pela Editora Companhia da Escola. É pioneiro no Brasil no ensino de Relatividade, Quântica e Cosmologia para jovens estudantes do final do ensino médio e início do curso superior. E faz questão de dizer que, aqui no blog, é professor/aluno em tempo integral pois, enquanto ensina, também aprende.

Sobre o blog

"O Física na Veia! nasceu em 2004 para provar que a física não é um “bicho papão”. Muita gente adora física. Só que ainda não sabe disso porque trocou o conteúdo pelo medo. Se começar a entender, vai gostar. E concordar: a Física é pop! Pelo seu trabalho de divulgação científica, especialmente em física e astronomia, sempre tentando deixar assuntos árduos mais leves sem jamais perder o rigor conceitual, o Física na Veia! foi eleito por um júri internacional como o melhor weblog do mundo em língua portuguesa 2009/2010 pelo The BOBs – The Best of Blogs da alemã Deutsche Welle."

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