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Está de quarentena? Apague a luz e olhe pro céu!

Prof. Dulcidio Braz Júnior

01/05/2020 15h03

Incrível imagem "all sky" feita no ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) Observatory que fica em San Pedro de Atacama, Antofagasta, Chile, e que foi destaque do APOD/NASA em 24/07/2014. (Crédito)

 

Desde meados de março de 2020, quando começou o isolamento social horizontal aqui no Brasil como medida cientificamente sensata para achatar a curva de contaminação pelo novo coronavírus, venho incentivando a quem posso a observar o céu noturno. Até criei a hashtag #astroisolamento para marcar as minhas publicações aqui do blog e também nas redes sociais. Confira, lá embaixo, os links para meus posts daqui do Física na Veia e que abordam exatamente este tema sugerindo observações astronômicas sem sair de casa.

Olhar o céu nos acalma. E nos remete às nossas origens cósmicas. Nada melhor para se fazer em período de quarentena, de casa, do quintal ou pela janela, e com total segurança.

Várias pessoas já retornaram relatos positivos contando que, em plena pandemia, seguiram as minhas sugestões e passaram a observar o céu. Isso não tem preço! É motivador para este velho professor e divulgador científico saber que mais alguns pares de olhos voltaram-se para o céu a partir das minhas dicas! É por essas e outras que o Física na Veia existe há 15 anos e já vai rapidinho para 16!

Hoje trago uma iniciativa na mesma linha. Ela vem do Observatório do Valongo, da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trata-se do projeto "Astronomia Através da Janela". Publico, mais abaixo, o press release do projeto na íntegra.

Tomei conhecimento deste projeto super bacana a partir da profa. Dra. Tânia Dominici, astrônoma de profissão, entusiasta da divulgação científica, uma amiga "virtual" — no sentido de ser alguém com quem nunca tive o prazer de um encontro pessoal — mas com quem compartilho boas ideias de Astronomia  através das redes sociais e de quem já me tornei fã há um bom tempo. A meu convite, profa. Tânia participou e apoia o "Nós Somos a Ciência", manifesto pela Ciência criado pelo Will Ciência, caríssimo ex-aluno, e que foi lançado oficialmente em 06/04/2020. Confira, neste post, o primeiro vídeo do manifesto. Veja, neste outro post, mais detalhes sobre o manifesto e o segundo vídeo só com cientistas mulheres e a participação da astrônoma Tânia Dominici.

Mas vamos ao projeto do Valongo!

Astronomia Através da Janela

O Céu Perdeu as Estrelas?

(press release oficial do projeto)

Você já viu a Via Láctea? Já observou uma noite tão estrelada que teve até dificuldade em contar o número de estrelas? Se você mora nas médias e grandes cidades é muito provável que sua resposta seja não. Faça uma experiência bem simples! Vá para algum lugar em sua casa que consiga observar o céu. Conte quantas estrelas você consegue ver. Depois, apague suas luzes, espere alguns minutos para sua visão se acostumar ao escuro, e olhe novamente pro céu. Será que você conseguiu ver alguma estrela a mais? Por quê? A resposta é simples: poluição luminosa, Ela é consequência do uso inapropriado e excessivo da luz artificial. As estrelas continuam lá e o que realmente mudou foi a quantidade de luz artificial que a humanidade produz.

Hoje em dia, os centros urbanos concentram edifícios que parecem não ter fim e inúmeros anúncios publicitários; as grandes indústrias; até mesmo o subúrbio tem erguido muitos condomínios e tudo isso implica em mais luzes. Embora seja ótimo para as atividades cotidianas do homem não estar mais na escuridão, tudo isso gera sérios problemas nos ecossistemas, na observação astronômica e até mesmo na nossa saúde.

Então, você de casa, pode se perguntar: mas existe uso errado da luz? Infelizmente, quase sempre, a resposta é afirmativa. Existem muitas formas de se utilizar a iluminação, e, na maioria das vezes, as pessoas pensam na praticidade e/ou na beleza. Vamos aos exemplos. Uma medida simples para a iluminação correta das ruas seria colocar um "chapéu" nos postes direcionando a luz para baixo, mas, é comum ver enfeites de luzes em prédios comercias e residenciais ou mesmo os holofotes de chão, que significam direcionamento errado da luz e desperdício de energia. Tanto esses, quanto outros modelos de iluminação, fazem com que o céu receba uma quantidade absurda de luz. Esse efeito ofusca as estrelas e dificulta as observações astronômicas amadoras e profissionais.

Agora que você já tem um certo conhecimento sobre o assunto, que tal uma reflexão? O ano de 2020 veio e trouxe consigo reviravoltas tão surpreendentes que mais parece que estamos em um livro de ficção. A quarentena tem mostrado que além de combater a disseminação do COVID-19, outras consequências da diminuição das atividades humanas acabaram surgindo, como a diminuição da poluição do ar. Por outro lado, com a maioria da população em casa, cresce o número de lâmpadas acesas, aumentando assim, a poluição luminosa. O que você pode fazer para diminuir esse problema?
Você pode começar sempre pela sua casa! Feche as cortinas das janelas dos cômodos iluminados, impedindo a saída da luz. Se algum vizinho alguma vez ficou incomodado ao tentar dormir, talvez ele até lhe agradeça. Evite deixar lâmpadas acesas em cômodos não utilizados. Sugira uma troca de iluminação na entrada do seu prédio ou rua e converse com as pessoas ao seu redor sobre o assunto. Imagine agora se todos desligassem suas luzes por 15 ou 30 minutos? A quantidade de estrelas vistas nos céus da cidade seria muito maior. Todos poderiam aproveitar esse tempo de isolamento para apreciar a beleza do céu noturno. Por que não começar esse movimento?

Então vamos combinar uma coisa bem legal: no dia 01/05, de 20 às 20:30, #DesligueAsLuzes.

Espalhe essa ideia e colabore para um céu mais estrelado.
Daniel R. C. Mello (Astrônomo e coordenador de Extensão do Observatório do Valongo da UFRJ)
Equipe do Programa de Visitação Pública do Observatório do Valongo
Projeto Astronomia através da janela

 

Meu relato pessoal sobre o céu mais incrível que já vi

Não sei dizer de memória a data. Mas foi lá no começo dos anos 90. Aconteceu um blackout de proporções muito grandes. Foi um apagão de energia elétrica que durou horas. Minha cidade e toda a região ficou por um bom tempo sem luz alguma. Era começo da noite. E o céu, por sorte, estava muito limpo.

Imagine uma região toda, várias cidades, sem energia elétrica! A primeira coisa que pensei ao notar que estávamos em escuridão total regional foi sair para fora de casa e observar o céu que estava aceso como nunca! Foi, sem dúvida, a minha experiência observacional a olho nu mais incrível!

Costumo dizer que foi um céu de índio. Não entendeu? Foi um céu que só quem vive lá no meio da floresta e longe das luzes ofuscantes das cidades tem o privilégio de ver! Eu vi. E jamais vou me esquecer! Foi uma experiência marcante que está impressa para sempre em minha memória afetiva.

E por isso ratifico: aproveite o isolamento social para olhar o céu! Siga a sugestão dos astrônomos do Valongo e apaguem as luzes! Não será um céu de índio, coisa que só um apagão regional poderia propiciar. Nem o incrível céu da imagem lá do topo do post, feita no Atacama, Chile, a 5100 m de altitude e num local muito seco que torna o céu ainda mais aceso. Mas será, certamente, uma experiência marcante e diferente em sua vida!

Experimente!

#DesligueAsLuzes

#OlheParaOCéu 

Pratique o #AstroIsolamento.

 

E aqui vai uma ajudinha…

Fiz simulação do céu de hoje, a partir das 19h (e de hora em hora) até 01h da próxima madrugada.

Comecei logo às 19h porque neste horário ainda dá para observar o planeta Vênus no horizonte oeste, do mesmo lado em que o Sol se põe. E fui até 1h do dia 2/maio porque neste horário, a leste, do lado que o Sol nasce, já teremos acima do horizonte os imperdíveis planetas Júpiter, Saturno e Marte.

Fiz no estilo "all sky" da imagem lá do topo do post porque assim você terá um mapa do céu completo com 360 graus de horizonte. Atente para os pontos cardeais na borda da circunferência do horizonte e data e horário na parte de baixo da imagem, do lado direito.

Usei o software Stellarium que é um planetário desktop freeware e opensource, ou seja, gratuito e em constante aprimoramento graças à colaboração de vários entusiastas da programação e da Astronomia. Você pode baixá-lo daqui: www.stellarium.org. Tem uma versão para Android facilmente encontrada na Google Store, mas é paga. O preço é pequeno e justo, e cabe a você decidir se vale a pena ou não. Também tenho esta versão "de bolso" e uso-a bastante, especialmente quando quero fazer uma consulta rápida de como estará o céu em alguma data/horário específico e não quero ligar o computador só para isso.

Usei latitude/longitude da minha cidade, São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Apesar de ser um local específico na vastidão do Brasil, país continental, dá para dar uma ideia geral do céu aproximado onde você estiver em território brasileiro. Se quiser precisão, baixe e use o software para a sua localidade.

Aqui vão os mapas simulados pelo Stellarium. Para ver melhor os detalhes, abra-os em tela cheia no seu computador ou smartphone. Além dos planetas, vale a pena tentar observar a oeste a constelação de Órion, onde ficam as "Três Maias", se pondo no final dia ao mesmo tempo em que a constelação de Escorpião ascende do outro lado, no horizonte leste, e fica visível durante toda a noite. Procure também pelo Cruzeiro do Sul, constelação marcante para os habitantes ao sul do equador. E ainda teremos "de brinde" uma Lua Crescente no céu por toda a noite.

Enfim, divirta-se! Viaje! Encontre os astros no céu e encontre-se consigo mesmo!

Boas observações de casa, e com toda a segurança! 

 

Abraço do prof. Dulcidio! Física e Astronomia — sempre com muita sensatez científica — na veia!


Já publicado aqui no Física na Veia!

Sobre o autor

Dulcidio Braz Jr é físico pelo IFGW/Unicamp onde atuou como estudante e pesquisador no DEQ – Departamento de Eletrônica Quântica no final dos anos 80. Mas foi só começar a lecionar física para perceber que seu caminho era o da educação. Atualmente, além de professor, é autor de material didático pelo Sistema Anglo de Ensino / Somos Educação e pela Editora Companhia da Escola. É pioneiro no Brasil no ensino de Relatividade, Quântica e Cosmologia para jovens estudantes do final do ensino médio e início do curso superior. E faz questão de dizer que, aqui no blog, é professor/aluno em tempo integral pois, enquanto ensina, também aprende.

Sobre o blog

"O Física na Veia! nasceu em 2004 para provar que a física não é um “bicho papão”. Muita gente adora física. Só que ainda não sabe disso porque trocou o conteúdo pelo medo. Se começar a entender, vai gostar. E concordar: a Física é pop! Pelo seu trabalho de divulgação científica, especialmente em física e astronomia, sempre tentando deixar assuntos árduos mais leves sem jamais perder o rigor conceitual, o Física na Veia! foi eleito por um júri internacional como o melhor weblog do mundo em língua portuguesa 2009/2010 pelo The BOBs – The Best of Blogs da alemã Deutsche Welle."