Física na Veia!

Arquivo : agosto 2015

Sábado de “Super Lua”
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Sanja_29ago2015_Super_Lua

Céu limpo e muito azul ao cair da tarde enquanto aguardo o nascer da Super Lua Cheia em São João
da Boa Vista.

 

Hoje, 29 de agosto, é sábado de Lua Cheia. E a Lua Cheia acontece com o nosso satélite próximo do perigeu, ponto de máxima aproximação com a Terra.

Traduzindo: a Lua Cheia estará, para os nossos olhos, ligeiramente maior e mais brilhante. Excelente oportunidade para observá-la, mesmo a olho nu! Se o céu estiver limpo, é show na certa, com luar “turbinado” pela aproximação Terra-Lua.

Estou aguardando a Lua Cheia nascer por trás da serra aqui em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, o que vai ocorrer pouco depois das 18h (horário de Brasília). Como você pode ver na foto acima, feita por volta das 17h30min, o céu aqui está incrivelmente limpo e azul, o que significa que a observação da Super Lua Cheia aqui na minha querida terrinha será inesquecível.

Espero que o céu esteja limpo na sua cidade também! Não perca o show da Super Lua!

 

Entendendo o fenômeno

Super_Lua

Esquema mostrando a órbita da Lua ao redor da Terra (fora de escala)

A órbita da Lua ao redor da Terra não é perfeitamente circular e sim ovalada. Sendo um pouco mais rigoroso, o correto é dizer que a órbita da Lua em torno da Terra é uma elipse que, geometricamente, é como se fosse uma circunferência “esticada” numa dada direção que chamamos de eixo maior.

Note que a Terra não fica no centro da órbita. Dizemos que ela ocupa uma posição excêntrica, ou seja, fora do centro, exatamente num dos dois focos da elipse. A figura acima, propositalmente fora de escala, nos ajuda a entender a ideia.

Agora use um pouco de imaginação: se a órbita da Lua ao redor da Terra fosse circular, a Lua estaria sempre à mesma distância da Terra. Certo? Mas, não é. Pelo caráter elíptico da órbita, a Lua pode passar mais perto da Terra (perigeu) ou mais longe (apogeu).

E sabemos que qualquer objeto por nós observado, se estiver mais perto dos nossos olhos, parecerá maior. Mas, se estiver mais longe, teremos a sensação de que ficou menor. É exatamente isso que ocorre com a Lua vista da Terra. Ela pode ter tamanho aparente maior ou menor dependendo se está mais perto ou mais longe do nosso planeta (e consequentemente dos nossos olhos).

A distância média Terra-Lua, indicada na figura como “a” e chamada de semi-eixo maior da órbita, mede aproximadamente a = 384 00 km. Usando geometria e física podemos demonstrar que as distâncias mínima e máxima Terra-Lua são dadas respectivamente por a(1 – e) e a(1 + e) onde e = 0,0549 é a excentricidade da elipse, um número que dá uma ideia de quão ovalada é a elipse. Se e = 0, a elipse é um circunferência perfeita. Mas, quanto maior é a excentricidade (e), mais oval é a elipse.

Podemos facilmente calcular os valores (aproximados) das distâncias mínima e máxima Terra-Lua. Veja:

– Mínima: a(1 – e) = 384 000 (1 – 0,0549) = 360 000 km (perigeu)

– Máxima: a(1 + e) = 384 000 (1 + 0,0549) = 405 000 km (apogeu)

Quando acontece da Lua estar na fase cheia, ocasião em que a sua face voltada pra Terra fica 100% iluminada e, coincidentemente, a Lua está passando pelo perigeu (ou perto dele), temos uma Lua Cheia visualmente maior, algo em torno de 14%. E, dependendo das condições atmosféricas, seu brilho poderá ser até 30% maior. Os cientistas chamam de Lua Cheia no perigeu. Mas muitos leigos têm chamado o fenômeno de Super Lua.

A rigor, a Super Lua pode ocorrer com o nosso satélite natural entre os pontos P’ e P” indicados na figura. P’ é a posição da Lua cerca de 24h antes de passar pelo perigeu. E P” a posição do nosso satélite 24h adiante do perigeu.

Deu para entender?

Hoje a Lua Cheia acontecerá cerca de 20h antes do perigeu (um pouco adiante de P’).

No próximo mês, em 27 de setembro, teremos outra Super Lua Cheia, desta vez quase no perigeu! E o melhor: acontecerá um Eclipse Lunar Total visível aqui no Brasil! Vai ser show!  Já estou me programando para observar o fenômeno e fazer uma cobertura aqui no blog.

A próxima Lua Cheia depois do eclipse, em outubro, também será Super Lua pois nosso satélite estará passando um pouco antes de P”. Teremos três Super Luas seguidas. Acontecimento raro!

Aproveite a noite de hoje, sábado, para observar (e quem sabe fotografar) a Super Lua Cheia!

Bom céu! Boas observações!


Galeria com as minhas imagens da Super Lua

A Super Lua nascendo amarelada por trás da serra, com bastante zoom, quase 18h30min.

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Super Lua nascendo por trás da serra. São João da Boa Vista, SP. Crédito: Dulcidio Braz Jr.

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Super Lua nascendo por trás da serra. São João da Boa Vista, SP. Crédito: Dulcidio Braz Jr.

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Super Lua nascendo por trás da serra. São João da Boa Vista, SP. Crédito: Dulcidio Braz Jr.

A próxima imagem foi feita com exposição de 4s para mostrar o potente luar e o tamanho aparente da Super Lua em comparação com a paisagem local.

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Super Lua nascendo por trás da serra. São João da Boa Vista, SP. Crédito: Dulcidio Braz Jr.

Quase 20h. Da janela do meu apartamento, terceiro andar, vejo o luar “turbinado”! Repare como a luz da Super Lua Cheia “desenha” o perfil da serra!

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Intenso luar da Super Lua “desenhando” o perfil da serra. São João da Boa Vista, SP. Crédito: Dulcidio Braz Jr.

Mais alta no céu. Agora prevalece o tom prateado.

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A Super Lua alta no céu. Crédito: Dulcidio Braz Jr.


Já publicado no Física na Veia

 


Vamos pra Marte?
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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Minha passagem para Marte na missão Insight

 

Quer ir pra Marte? Eu “vou”, de carona com a Insight da NASA! Meu lugar está garantido! Veja acima a minha passagem confirmada e já emitida!

A missão Insight (Interior Exploration using Seismic Investigations, Geodesy and Heat Transport) da NASA será lançada em 30 de março de 2016 e deve pousar no planeta vermelho em 28 de setembro de 2016.

Mais do que outra missão para Marte, a Insight vai levar instrumentos sofisticados para um estudo geológico que pretende ajudar os cientistas a entenderem melhor a formação de Marte, um planeta rochoso como os três outros planetas interiores do Sistema Solar (Mercúrio, Vênus e a nossa Terra). Vale lembrar que Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, os outros quatro planetas do nosso sistema, são todos gasosos.

Se você é um leitor atento, notou (logo acima) que coloquei aspas em “vou”. É que na verdade só o meu nome vai pra Marte de carona com a Insight, gravado num chip.

Gostou da ideia? Você também pode “ir” nessa missão interplanetária. Clique aqui e garanta a sua passagem. É rápido e a boarding pass sai a hora! Mas só até o dia 8 de setembro. Corre!

Confira mapa mundi que mostra em tempo real o número de inscritos para ter seu nome na Insight em cada país. Logo após a minha inscrição havia 12122 brasileiros cadastrados.

Montagem dos painéis solares da Insight que vai me “levar” pra Marte. Clique para abrir versão em alta resolução.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Lockheed Martin


Para saber mais


AR2396: gigantesco grupo de manchas solares
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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Registro fotográfico que fiz do disco solar hoje com destaque para a gigante AR2396.

 

A imagem do Sol logo acima foi feita hoje, dia 9 de agosto de 2015, assim que o Sol despontou por trás da serra aqui em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Dá para ver nitidamente a região ativa AR2396 e seu conjunto de manchas que tem comprimento aproximado de 120 000 km, o que equivale a quase dez planetas Terra alinhados! É enorme!

ANTES DE QUALQUER COISA: NUNCA OLHE DIRETAMENTE PARA O SOL! MUITO MENOS COM BINÓCULO, LUNETA OU TELESCÓPIO. HÁ ENORME RISCO DE ‘QUEIMAR’ DE FORMA IRREVERSÍVEL ALGUMAS CÉLULAS DA RETINA QUE, UMA VEZ DANIFICADAS, NUNCA MAIS VÃO REGISTRAR A LUZ QUE CHEGA AO FUNDO DO OLHO. RISCO PERIGOSO E CERTO DE CEGUEIRA.

Como fiz a imagem do Sol com segurança?

Coloquei minha câmera num tripé. Ajustei (por tentativa e erro) os parâmetros (ISO 100, f 6.3, 1/20s) para a melhor resolução/contraste. E o mais importante: usei um filtro solar Thousand Oaks que barra 99% da radiação da nossa estrela. Você entendeu direito: ele só deixa passar 1% da radiação solar. Isso garante segurança, inclusive para a câmera que poderia ter o sensor danificado caso ficasse muito tempo apontada para o Sol.

Embora bastante simples e sem resolução (já que usei apenas a óptica da câmera digital e um filtro solar) a foto acima vale por ser meu primeiro registro fotográfico de uma mancha solar.

E fica como dica para quem mais quiser “brincar” com astrofotografia solar, desde que com toda a segurança! Com o Sol, sendo bastante responsável, a gente não brinca de fato. Mas pode se divertir se houver certeza de bastante segurança! Ok?

 

Como eu sabia da AR2396?

Acompanho observatórios que estudam o Sol. Gosto bastante do assunto. Já escrevi sobre o tema algumas vezes (confira dois dos meus textos dentro do tema: post1 post2).

Soube que o grupo AR2396 estava evoluindo e crescendo. O SDO – Solar and Dynamics Observatory da NASA publica imagens diárias do disco solar e pude constatar que o grupo AR2396 era mesmo enorme. Veja aqui imagem do dia 7 de agosto. E logo abaixo imagem de hoje, 9 de agosto.

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Imagem do disco solar feita hoje (9/agosto/2015) pelo HMI do SDO/NASA.

Astrônomos amadores do mundo todo, atentos à novidade, já estavam fazendo registros incríveis, como esse logo abaixo feito em 6 de agosto pelo francês Francois Rouviere com equipamento dedicado para observação solar em que podemos ver em detalhes o grupo de manchas e as granulações solares ao redor.

Sol_AR2396_6agosto2015_francois

Belíssimo registro feito por Francois Rouviere em 6/agosto/2015 usando telescópio newtoniano de 210 mm com filtro K-line e Barlow 5X acoplado à câmera IDS 3240 NIR. Imagem pós processada com AutoStakkert! e Lucy-Richardson com ImPPG. [Fonte: Spaceweather]

Com sorte, dependendo das condições atmosféricas, até mesmo a olho nu estava sendo possível observar a AR2396, especialmente com o Sol nascendo ou se pondo, quando a própria atmosfera (mais possível poluição, poeira ou névoa) filtra naturalmente a luz solar deixando suas manchas evidentes com segurança para o observador. Podemos conferir logo abaixo uma prova espetacular disso na belíssima imagem feita pela espanhola Leonor Ana Hernandez ao amanhecer do dia 7 de agosto.

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Recorte da imagem feita pela espanhola Leonor A. Hernandez em 7/agosto/2015 onde aparece a
AR2396 no disco solar “filtrado” pela atmosfera ao amanhecer. [Fonte: Spaceweather]

Quer ver a imagem acima completa e em maior resolução. Clique aqui.

 

O que são manchas solares?

Manchas solares são regiões na superfície do Sol com temperatura menor do que a média local. Sendo mais frias (a rigor menos quentes) que a vizinhança, se mostram como manchas escuras em contraste com o resto do Sol mais brilhante.

Manchas solares apresentam grande concentração de campo magnético que aprisiona matéria na forma de plasma, ou seja, gás muito quente e ionizado (eletricamente carregado). Se as linhas de campo magnético se rompem, matéria é liberada e pode ser ejetada para o espaço em eventos que chamamos de ejeção de massa coronal. Neste caso, inúmeras partículas são lançadas no espaço em conjunto com radiação de amplo espectro que vai desde as ondas de rádio até os raios gama, passando pelos raios X. Esse fenômeno solar está intimamente ligado às auroras boreais e austrais aqui na Terra. Confira post sobre o assunto.

Galileo Galilei, mesmo sem saber exatamente o que eram, observou manchas solares usando uma luneta de fabricação própria. Desconhecendo o perigo que corria ao observar o Sol com um instrumento que concentra a radiação solar, acabou tendo sérios problemas de visão. Veja abaixo desenho feito por Galileo das manchas solares por ele observadas em 23 de junho de 1613.

Sol_AR_23jun1613_registro-Galileo

Manchas solares observadas e registradas por Galileo Galilei em 23/junho/1613. [Fonte: Facebook / Physics World]


Já publicado no Física na Veia!

 


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