Física na Veia!

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A Física dos apaixonados e a paixão pela Física
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Casal apaixonado [Fonte: Pixabay]

Imagine a seguinte cena:

“Praia deserta. Mar. Sol se pondo. Gaivotas voando em bando. Ela vem correndo de um lado. Ele de outro. Ao fundo toca uma música romântica. Tudo é mostrado em câmera lenta, valorizando cada movimento, cada ação, cada mínima expressão dos apaixonados. Quando se aproximam, a garota salta ao encontro do rapaz. E, num abraço, continuidade do movimento anterior de corrida, seus corpos giram enquanto sorriem com contagiante felicidade. Aos poucos o giro cessa. O abraço se aperta. Já parados, acontece um apaixonado e longo beijo”.

 

Já viu isso no cinema? Quem sabe já tenha vivido isso na vida real?

No mundo real não tem câmera lenta. Mas, para os apaixonados, parece que o tempo parou. Não toca música alguma. Mas precisa? No cinema a música ajuda a criar o clima ideal. No mundo real o clima já está mais do que criado, pelo menos para os dois apaixonados.

Mas tem um detalhe sutil: você já se perguntou “por que neste tipo de cena, no encontro dos corpos, sempre há um giro?”. Seja no cinema, seja na vida real, tudo sempre acaba em rotação dos corpos. Não é bem assim?

A resposta está na Física! Achou estranho? Explico a seguir.

Corpos dotados de massa e que se movem com determinada velocidade carregam energia cinética de translação. Se colidirem, ou seja, se “baterem de frente”, tendem a parar. Uma vez parados, a energia cinética vai para zero. Mas toda a energia que havia previamente não pode simplesmente desaparecer. Ela tem que ir para algum lugar pela conservação da energia, um dos pilares da Física. Se houver colisão dos corpos, a energia será dissipada na pele e nos músculos dos apaixonados. Resultado? Dor e hematomas. E pode ser ainda pior. Se a energia for dissipada nos ossos, podem ocorrer fraturas. Seria um final trágico, direto da praia para o pronto socorro. Isso detonaria com o tão esperado final feliz!

É intuitivo para os apaixonados que, no encontro, seus corpos devam girar. Desta forma, a energia cinética de translação passa a ser energia cinética de rotação. Os corpos continuam se movendo, mas o centro de massa do sistema não sai do lugar. Aos poucos, pelo contato dos pés dos apaixonados com a areia da praia, tal energia vai sendo lenta e suavemente dissipada por atrito, até que desaparece (a rigor, transforma-se em calor e também é em partes usada para deformar a superfície maleável da areia porque energia, como eu já disse e reafirmo, sempre se conserva como um todo). A dissipação (ou, se preferir, transformação) lenta e gradual da energia cinética noutras modalidades de energia colabora para que não ocorra nenhum tipo de trauma nos corpos dos apaixonados. Dissipações abruptas de energia, fica o aviso, são sempre ações perigosas!

Quem ensinou isso para os apaixonados? Será que aprenderam a Física dos casais apaixonados na escola? Certamente não. Talvez eles nem conheçam Física teórica com profundidade e rigor. Mas vivendo, convivendo rotineiramente com o mundo físico ao seu redor, já entenderam empiricamente como tudo funciona. Não deixa de ser conhecimento. Concorda comigo? De certa forma, o casal conhece Física!

Isso reforça uma ideia que carrego comigo como físico e professor: todo mundo sabe Física. Pelo menos um pouco. Sem ela, sem noções básicas das regras do jogo, não há como viver, ou seja, não tem como jogar o jogo do Universo. Quem não conhece cinemática básica, por exemplo, corre sérios riscos numa mera travessia de rua. Pode morrer. Game over!

Todo mundo sabe, ao menos um pouco, as regras deste jogo do Universo. Logo, conhece Física. O problema é que sabe mas não sabe que sabe! Para piorar, quando tenta matematizar, ou seja, escrever as regras que já conhece da prática numa outra linguagem bem menos familiar, tudo parece ficar muito assustador.

Por isso, entendo que aprender Física tem que ser sempre com o maior grau possível de contextualização. O Física na Veia! surgiu exatamente nesta linha, sempre que possível tratando a Física de uma forma palpável, contextualizada. E Física tem a ver com tudo! Duvida? A cena comum do casal apaixonado, por exemplo, está repleta de Física. Você já tinha olhado para esta cena com este olhar físico? E veja que só focalizei elementos da Mecânica Clássica de Newton. Poderíamos aproveitar a mesma cena para falar sobre outros fenômenos de outras áreas da Física que também estão presentes e convivendo no mesmo cenário.

Aproveite hoje, 12 de junho, Dia dos Namorados — pelo menos no Brasil — para começar a perder o medo da Física. Se entendê-la, vai se apaixonar. E muito em breve vai querer namorar com ela. E corre o risco de não mais conseguir viver sem ela pro resto da vida. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença! Sabe como é? Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Mas garanto que a relação é das mais férteis, divertidas e instigantes! Casamento ideal, como tantas coisas que idealizamos nos nossos modelos científicos!

Aproveito a deixa da data especial e este texto de Física contextualizada para desejar a você um Feliz Dia dos Namorados, esteja você namorando ou não. Afinal, o importante é ser feliz de qualquer forma, só ou acompanhado, em qualquer dia!


Este post também foi publicado no Física na Veia!  no Steemit neste link.


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