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Por que a data de Corpus Christi muda a cada ano?
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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[Crédito da imagem: Pixabay]

 

Você já se perguntou por que razão a data de Corpus Christi muda a cada ano?

E não é só ela. A Páscoa e o Carnaval também. Na verdade, todas as datas comemorativas cristãs variam a cada ano e por isso mesmo são chamadas de datas móveis. O Carnaval, uma festa pagã, vai de carona.

A resposta para essa dança das datas está na ASTRONOMIA! Sim, é a Ciência mais uma vez fazendo o seu papel.

A determinação das datas móveis começa com a data do Domingo de Páscoa, assim definido:

“O Domingo de Páscoa é sempre o primeiro domingo após a Lua Cheia que acontecer depois de 21 de março”¹

21 de março é a data aproximada do Equinócio de Outono (no hemisfério sul) ou Equinócio de Primavera (no hemisfério norte). E temos que procurar pela Lua Cheia cujo ciclo obedece rigorosamente as Leis da Mecânica Celeste. Tudo a ver com Astronomia, concorda?

Encontrada a data da Páscoa, a terça-feira de Carnaval será sempre 47 dias antes. E Corpus Christi 60 dias depois. A tabela abaixo, mais completa, nos dá os critérios para encontrarmos todas as datas móveis cristãs.

 

Para entender como tudo funciona, nada melhor do que colocar logo a mão na massa. Vamos tomar o ano de 2018 como exemplo e calcular para ele as principais datas móveis (Páscoa, Carnaval e Corpus Christi)? Siga os passos abaixo e acompanhe-os no calendário (ilustração) logo a seguir:

  1. Tome um calendário e nele localize a data de referência, 21 de março;
  2. Consultando um calendário lunar confiável², descubra quando será a data da Lua Cheia logo após 21 de março. Em 2018 ela aconteceu em 31 de março, um sábado;
  3. O primeiro domingo após a primeira Lua Cheia que caiu em 31 de março, um sábado, foi 1 de abril. Lembra que em 2018 o Domingo de Páscoa caiu no “dia da mentira”, o primeiro de abril? A data do Domingo de Páscoa é sempre a referência para encontrarmos as demais datas móveis. Por isso vou chama-la de “dia zero”;
  4. Retroceda 47 dias a partir do “dia zero”, Domingo de Páscoa. Encontramos uma terça-feira, certo? É a terça-feira de Carnaval que em 2018 caiu em 13 de fevereiro;
  5. Conte 60 dias a partir do “dia zero”, Domingo de Páscoa. Desta vez encontramos uma quinta-feira, confere? Esta é a data de Corpus Christi³, 31 de maio, que é hoje!

 

Cálculos das datas da Páscoa, Carnaval e Corpus Christi (clique para abrir versão maior)

 

 

Deu para entender?

Existem algoritmos para calcular a data exata da Páscoa. Com eles dá para programar computadores ou criar aplicativos para fazer todo o trabalho braçal e mental por nós. Um deles, bastante confiável, é este:

  • a = ano
  • c = a/100
  • n = a – [19×(a/19)]
  • k = (c – 17)/25
  • i = c – c/4 – [(c-k)/3] +(19×n) + 15
  • i = i – [30×(i/30)]
  • i = i – {(i/28)×[1-(i/28)]×[29/(i+1)]×[(21-n)/11]}
  • j = a + a/4 + i + 2 -c + c/4
  • j = j – [7×(j/7)]
  • l = i – j
  • m = 3 + [(l+40)/44]
  • d = l + 28 – [31×(m/4)]

 

Assim como tem gente que gosta de palavras cruzadas, há quem se divirta resolvendo Sudoku. Então, por que não se divertir também calculando as datas móveis para um determinado ano? Eu sei que é mais prático pegar um calendário pronto. Mas descobrir as datas móveis na raça é muito mais divertido, desde que se tenha tempo e, principalmente, interesse. Fica a sugestão de um “quebra-cabeças diferente” ou, como também poderíamos chamar, um joguinho científico. Dá para brincar com os amigos, com os filhos, ou se divertir sozinho num momento de folga.

De qualquer maneira, a proposta deste meu texto é decifrar o (quase) enigma das datas móveis dos nossos calendários ano após ano, uma curiosidade prática, e mais do que tudo reforçar a importância da Astronomia que nos permitiu a construção de um calendário funcional.

Antes de encerrar, deixo uma questão para você pensar (professor adora dar tarefa extra, que coisa!): Em anos bissextos, quando temos um dia a mais no ano, para encontrarmos a data da terça-feira de Carnaval temos que retroceder (em relação à data da Páscoa) 48 dias — em vez de 47 — já que o mês de fevereiro ganha 1 dia? Ou o critério continua o mesmo? E a determinação da data de Corpus Christi, deve ou não mudar? Deixe a sua resposta num comentário.


Este post também está publicado no Física na Veia! (Steemit), de minha autoria, neste link.


¹ Antes desta definição, a data da Páscoa era determinada como “o primeiro domingo depois da primeira Lua Cheia que ocorrer após o Equinócio de Primavera no hemisfério norte ou de Outono aqui no hemisfério Sul”. Essa regra foi oficializada pelo primeiro Concílio de Nicéia (325 d.C.), a primeira conferência de bispos da igreja católica que ocorreu durante o reinado do imperador romano Constantino I, o primeiro a aderir ao Cristianismo. Vale lembrar que foi ele quem lidou, dentre outras, com questões sobre a natureza de Jesus Cristo (se Deus, homem, ou uma mistura dos dois), acabando por criar o conceito de Santa Trindade. Nesta época era utilizado o calendário Juliano, criado pelo imperador Caio Julio Cesar (100 a.C. a 44 a.C.). Mas havia um grave erro nesta regra: por problemas intrínsecos do calendário Juliano, ela “empurrava” a data da Páscoa para frente, rumo ao verão do hemisfério norte ou inverno no hemisfério sul. O erro foi percebido pelos astrônomos que sugeriram ao Papa Gregório XIII uma reforma no calendário. Isso foi feito em 1582. Nascia assim o calendário Gregoriano. Para facilitar os cálculos, os astrônomos propuseram a utilização de um movimento “médio” e não do movimento real da Lua. O Equinócio — de Primavera no hemisfério norte e de Outono no hemisfério sul — foi aproximado para 21 de março, data fixa, e a data da Páscoa passou a ter essa definição mais moderna e sem erros.
² Existem aplicativos para smartphones que calculam as fases lunares com precisão e podem, neste caso, ser usados com bastante praticidade.
³ Assim como 47 dias antes do Domingo de Páscoa é sempre uma terça-feira, 60 dias depois é sempre uma quinta-feira. Sutilezas matemáticas da nossa maneira de contar o tempo.

Já publicado no Física na Veia!

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