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Hoje a Lua (Cheia) estará mais perto da Terra. Vamos observar?

Prof. Dulcidio Braz Júnior

08/02/2020 13h07

Lua Cheia. Técnica do mosaico (webcam adaptada no telescópio – saiba mais neste post)

 

Amigos, pessoas conhecidas, sempre comentam comigo "vi a Lua ontem, estava linda, enorme, luminosa, e lembrei de você". Sim, eu adoro olhar o céu. E, em particular, para a Lua. Por isso já virei "referência astronômica" entre os mais chegados.

Às vezes, de fato, a Lua aparece maior no céu. Também pode estar mais brilhante. É o que vai acontecer na madrugada deste domingo e que muitos chamam de Superlua. As observações da Lua, mais de 99% iluminada, podem começar hoje, sábado, assim que a Lua nascer no começo da noite.

Na prática, há diversos fatores a serem considerados sobre o tamanho aparente da Lua. Alguns fatores são físicos, palpáveis, outros psicológicos e ligados às ilusões de óptica.

Acompanhe o raciocínio abaixo.

 

Ilusões de Óptica

A imagem abaixo, retirada deste vídeo, mostra o que parece ser uma Lua Cheia gigantesca! Mas já aviso: trata-se de uma ilusão.

Ilusão de uma Lua Cheia gigantesca (veja, acima, vídeo do qual a imagem foi retirada)

 

A ilusão reside no fato de que temos objetos distantes no horizonte (no caso, pessoas) e diante do disco lunar. Em situações como esta, o cérebro tende a comparar o tamanho dos objetos com o diâmetro aparente do disco lunar. Como sabemos que pessoas adultas têm, em média, altura em torno de 1,7 m, pouco mais ou pouco menos, acabamos por acreditar que esta Lua Cheia possa ter até 10 m de diâmetro aparente. Seria incrível! Mas não tem. A imagem foi obtida com uma lente super zoom que foi "buscar' as pessoas lá longe!

Criei a ilustração abaixo para ajudar a quem quiser entender de vez este curioso efeito ilusório. Repare que temos um observador, a Lua Cheia, e uma pessoa que caminha diante do disco lunar afastando-se cada vez mais do observador. Note que, como a distância entre o observador e a Lua é fixa, o tamanho (ou diâmetro) aparente da Lua para o observador não muda. Mas, quanto mais longe a pessoa estiver do observador, menor lhe parecerá. Logo, em comparação com a Lua de tamanho aparente fixo, a pessoa vai ficando visualmente cada vez menor. Mas, para o cérebro que "sabe" que o tamanho de uma pessoa é fixo, é a Lua que parece ficar cada vez maior, podendo até mesmo parecer gigante! Dá para entender a "pegadinha" cerebral?

O mesmo efeito acontece se temos edificações ou árvores diante ou aparentemente próximas do disco lunar quando, iludido, nosso cérebro tende a acreditar que a Lua está bem grande por comparação com os objetos de tamanhos conhecidos.

Na prática, o diâmetro aparente médio da Lua fica sempre em torno de meio grau (0,5o). Para ter certeza disso, especialmente quando você estiver vendo uma Lua que parece ser algo descomunal em tamanho, faça o "teste do dedo indicador". É simples:

  1. Estique o braço e levante o dedo indicador;
  2. Com o braço esticado, posicione o seu dedo indicador levantado diante do disco lunar;
  3. Você vai se surpreender! O seu dedo indicador cobrirá com facilidade o disco lunar, ainda que pareça gigante!

 

Para o seu olho, o dedo indicador terá nesta posição de braço esticado uma largura aparente de cerca de 1 grau (1o). Varia, claro, de pessoa para pessoa. Mas, em média, será de 1 grau (1o). Como o tamanho aparente da Lua Cheia é de cerca de meio grau (0,5o), o dedo indicador deverá cobrir praticamente duas Luas cheias!

Este teste, infalível, detona qualquer ilusão de Lua gigante! Use-o! E vai perceber por um experimento simples que não devemos acreditar em tudo o que vemos e nos parece ser verdade porque o que vemos ou acreditamos ver é sempre uma interpretação cerebral da realidade.

Em outras palavras, uma Lua enorme que você "vê" no céu nunca é, de fato, uma Lua tão grande assim!

 

A distância Terra-Lua não é constante

Órbita elíptica da Lua ao redor da Terra

 

A órbita da Lua ao redor da Terra não é uma circunferência perfeita e com a Terra exatamente no centro. É uma oval, tecnicamente uma elipse, com a Terra ligeiramente deslocada do centro para um ponto chamado de foco da elipse. Confira a ideia na ilustração acima que, propositalmente, está fora de escala e exagera no caráter oval da órbita.

Note que, na órbita da Lua ao redor do nosso planeta, há um ponto de máxima aproximação com a Terra e que chamamos de perigeu. Do outra lado da órbita há o apogeu, ponto de máximo afastamento em relação a Terra. É isso mesmo que você entendeu: a distância Terra-Lua varia ao longo de um ciclo lunar. Como a órbita lunar não é tão oval quanto na figura que eu fiz, a variação nesta distância também não é tão grande. Na própria ilustração dou uma ideia do tamanho desta variação.

Quando coincide de uma Lua Cheia, ou seja, a face da Lua voltada para a Terra estar 100% iluminada pelo Sol com a Lua passando perto do perigeu, além de bem iluminada, a Lua mais próxima da Terra será vista por um observador terrestre com tamanho aparente maior. Muita gente, informalmente, chama esta coincidência de Superlua, nome exagerado, talvez até sensacionalista e que leva muitos a acreditarem que teremos uma Lua Cheia enorme no céu. Não teremos.

O nome cientificamente correto do fenômeno é Lua Cheia no (ou perto do) perigeu. Não tenho nada contra o uso do termo Superlua desde que, junto a ele, como faço aqui, venham explicações de que uma Superlua não tem nada de tão super assim. Mas, que fique claro, abomino, desde já, qualquer notícia sensacionalista e que deseduca uma multidão de pessoas já tão mal instruídas cientificamente.

Se compararmos uma Lua Cheia no apogeu (de menor diâmetro aparente e menor brilho) com uma Lua Cheia no perigeu (com maior diâmetro aparente e mais brilhante), teremos na prática uma diferença de 14% no tamanho e 30% no brilho. Duvido que a olho nu, e ainda mais com as "interpretações cerebrais",  alguém consiga distinguir 14% de diferença no diâmetro aparente do nosso satélite natural. Talvez, num local afastado das luzes da cidade, 30% de brilho possa representar um luar "turbinado", bastante intenso, capaz de clarear a escuridão da noite. Um "super luar" é  possível, mas a percepção dele vai depender das condições de iluminação artificial do local. Mas uma Lua de tamanho super não faz nenhum sentido. Tenha isso em mente!

Se você ficou interessado em aprofundar o tema e entender de forma quantitativa de onde vêm estes valores 14% (para o diâmetro aparente) e 30% (para o brilho), indico este post onde faço todas as análises e todas as continhas usando matemática básica de nível de ensino médio. É bem interessante e, modéstia à parte, didático!

 

Superlua(perguntas e respostas rápidas)

 

1. Hoje, 8 de fevereiro de 2020, teremos Superlua?

Se entendermos como Superlua que a fase da Lua Cheia ocorrerá quando a Lua estiver passando perto do perigeu, a resposta é sim!
Mas tem uns detalhes: a rigor, o perigeu (máxima aproximação lunar com a Terra) acontecerá no início da madrugada de domingo enquanto a Lua Cheia, ou seja, com 100% da face voltada para a Terra iluminada, ocorrerá em pleno domingo já com o  Sol acima do horizonte. O fenômeno (Superlua ou Lua Cheia no perigeu) propriamente dito é no domingo, na madrugada.

2. A Lua Cheia estará gigante no céu?

Não espere nada espetacular neste sentido. A Lua Cheia estará ligeiramente maior, mas algo imperceptível a olho nu. Dependendo do cenário, como comentei acima, talvez você tenha a ilusão de uma Lua Cheia enorme. Mas se entenda com o seu cérebro fazendo o revelador "teste do dedo indicador".

3. A Lua Cheia estará mais luminosa?

Sim. O luar estará "turbinado". Mas, a olho nu, para perceber esta característica, só se você estiver longe das luzes artificiais da cidade.

4. Então, na prática, a Superlua, melhor designada como Lua Cheia no perigeu, é uma Lua Cheia quase como qualquer outra?

Sempre digo que olhar o céu é uma experiência muito particular. E depende do seu momento interior, ou seja, do seu estado emocional e do que você espera ver e até mesmo de como você interpreta o que vê. Se for observar a Lua esperando ver uma Lua gigante no céu, ficará frustrado. Mas se olhar o nosso satélite e souber ver a beleza natural que ele tem, procurando um lugar bem escuro¹ e, de preferência, com boa companhia, garanto que a experiência será ímpar! Olhar o céu, em particular a Lua Cheia, é sempre "Superlegal" mesmo que nem sempre seja uma "Superlua" (ou Lua Cheia no perigeu)!

__________

Aqui em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, neste verão tipicamente chuvoso, o céu está nublado. Não sei se vai dar para ver a Lua Cheia no perigeu. Mas sei e garanto que o luar estará "turbinado" e vai tentar o tempo todo romper a fronteira das nuvens!

Espero que você esteja num local com céu limpo e que consiga ver a Lua Cheia mais pertinho da Terra. E lembro, como já cantou Gilberto Gil, que "Do luar não há mais nada a saber a não ser que a gente precisa ver o luar". Veja!

Se eu conseguir ver/observar a Lua, tento fotografá-la. Se conseguir bons resultados, posto por aqui.

 

BOAS OBSERVAÇÕES! 

Abraço do prof. Dulcidio! E Física (e Astronomia) na veia!

 


¹ Nunca é demais reforçar a importância da segurança! Lugares escuros, afastados das luzes da cidade, são excelentes para observação do céu. Mas podem ser perigosos. Procure sempre por lugares seguros. Hoje em dia, todo o cuidado é pouco. Não corra riscos! Fica a dica!

Atualização [09/02/2020]

Meus registros da Lua Cheia no perigeu, apesar das nuvens, em posts na minha conta no Twitter:

  • Foto (o luar "turbinado" entrando pela janela, mesmo com nuvens)
  • Vídeo (timelapse da Lua nascendo)

 

Já publicado no Física na Veia!

Sobre o autor

Dulcidio Braz Jr é físico pelo IFGW/Unicamp onde atuou como estudante e pesquisador no DEQ – Departamento de Eletrônica Quântica no final dos anos 80. Mas foi só começar a lecionar física para perceber que seu caminho era o da educação. Atualmente, além de professor, é autor de material didático pelo Sistema Anglo de Ensino / Somos Educação e pela Editora Companhia da Escola. É pioneiro no Brasil no ensino de Relatividade, Quântica e Cosmologia para jovens estudantes do final do ensino médio e início do curso superior. E faz questão de dizer que, aqui no blog, é professor/aluno em tempo integral pois, enquanto ensina, também aprende.

Sobre o blog

"O Física na Veia! nasceu em 2004 para provar que a física não é um “bicho papão”. Muita gente adora física. Só que ainda não sabe disso porque trocou o conteúdo pelo medo. Se começar a entender, vai gostar. E concordar: a Física é pop! Pelo seu trabalho de divulgação científica, especialmente em física e astronomia, sempre tentando deixar assuntos árduos mais leves sem jamais perder o rigor conceitual, o Física na Veia! foi eleito por um júri internacional como o melhor weblog do mundo em língua portuguesa 2009/2010 pelo The BOBs – The Best of Blogs da alemã Deutsche Welle."