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Blog Física na Veia

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Vamos observar o eclipse da "Super Lua de Sangue"?

Prof. Dulcidio Braz Júnior

2020-01-20T19:20:24

20/01/2019 20h24

Montagem com imagens que capturei do eclipse lunar total de 21/12/2010

 

Muito provavelmente você já deve estar vendo/lendo/ouvindo coisas do tipo "na próxima madrugada teremos Eclipse Total da Super Lua de Sangue".

Teremos mesmo um eclipse? E que papo é esse de "Super Lua de Sangue"? A Lua vai ficar enorme no céu e sangrar? É algum sinal de mau agouro?

Calma! Sem dramas!

Do ponto de vista científico, sem qualquer conotação mística, teremos sim dois fenômenos astronômicos acontecendo ao mesmo tempo e que podemos, didaticamente, desmembrar em três para entender o que os mais sensacionalistas estão chamando de "Super Lua" e de "Lua de Sangue". Confira a seguir:

 

1 – O eclipse lunar

A Lua Cheia, a partir de 00h36min da madrugada de segunda-feira, 21 de janeiro de 2019, vai passar entre o Sol e a Terra numa situação especial em que os três astros ficam praticamente alinhados sobre uma linha imaginária chamada linha dos nodos e que coincide com a reta que é intersecção do plano da órbita da Terra ao redor do Sol e do plano da órbita da Lua ao redor da Terra.

A órbita da Lua ao redor da Terra está num plano inclinado em relação ao plano da órbita da Terra ao redor do Sol. Isso torna o alinhamento dos três astros algo bem mais raro.

 

A Terra, opaca, iluminada pelo Sol, forma no espaço um cone de sombra (ou umbra) e outro de penumbra. A imagem a seguir ilustra a umbra (área avermelhada) e a penumbra (área cinza).

A Lua fará o caminho tracejado (em verde) ao redor da Terra.

 

A Lua Cheia, seguindo a sua órbita ao redor da Terra, vai penetrar no cone de penumbra e, gradativamente, perder o brilho. Em seguida, a Lua Cheia vai mergulhar no cone de umbra. E é aí que vem a parte mais legal do evento com a Lua Cheia aparentando levar uma "mordida" cada vez maior.

Quando a Lua Cheia estiver completamente dentro do cone de umbra da Terra, por volta das 2h41min, estará configurado um Eclipse Lunar Total cujo ápice será às 3h12min. A partir daí é como se passássemos o filme de trás para frente porque a Lua Cheia vai saindo do cone de umbra e depois deixando a penumbra, com o evento terminando exatamente às 5h48min.

Explico os eclipses lunares em detalhes neste post daqui do Física na Veia! . E neste outro post, ainda na plataforma antiga do blog abordo eclipses solares e lunares de forma mais ampla.

 

2 – Onde está o "sangue" lunar?

Quando a Lua Cheia penetra no cone de umbra da Terra, onde supostamente não deveria haver luz alguma, o resultado esperado seria que a Lua, que não tem luz própria, desaparecesse por completo na escuridão umbral. Mas, por um capricho cósmico, com a luz solar tangenciando a fina atmosfera da Terra, ocorre maior absorção dos menores comprimentos de onda da luz visível e maior espalhamento dos maiores comprimentos de onda que correspondem aos tons de luz alaranjados e avermelhados. A atmosfera funciona como um filtro que seleciona os tons vermelho-alaranjados num fenômeno bem parecido ao que ocorre no crepúsculo. E luz destes tons filtrados refratam na atmosfera, sofrendo desvio, e mergulhando para dentro do cone de umbra que fica desta forma "tingido" de vermelho-alaranjado. Assim, a Lua Cheia, na totalidade de eclipse, adquire um tom "vermelho tijolo" bem característico que algumas pessoas, de forma dramática e nada científica, insistem em chamar de "Lua de Sangue". Nada a ver.

 

Meu registro da Lua avermelhada no máximo do eclipse lunar de 27/09/2015.

 

A Lua Cheia avermelhada não tem nada de sangue. Trata-se apenas do aspecto avermelhado que da Lua Cheia na totalidade de qualquer eclipse lunar. E é tudo explicado cientificamente. Neste post () disseco o fenômeno.
Neste post, caso queira aprofundar o tema, explico de forma detalhada o fenômeno da Lua Cheia avermelhada.

 

3 – E a "Super" Lua?

A órbita da Lua ao redor da Terra não é perfeitamente circular mas oval, num formato que chamamos tecnicamente de elipse. A Terra não fica exatamente no centro da elipse e ocupa uma posição excêntrica num ponto que a Geometria chama de foco da elipse.

Órbita elíptica da Lua ao redor da Terra

 

Desta forma, a Lua pode passar mais perto ou mais longe da Terra. E todos sabemos que o que vemos mais de perto sempre nos parece maior enquanto que o que observamos mais distante nos parece menor. Com a Lua não é diferente. O tamanho aparente da Lua depende da sua distância da Terra.
Quando coincide da fase cheia da Lua ocorrer na passagem do nosso satélite natural pelo ponto da sua órbita mais próximo da Terra, o perigeu, vemos daqui da Terra uma Lua Cheia ligeiramente maior e mais brilhante, o que tem sido chamado de Super Lua. Ao contrário, se a Lua Cheia ocorre no ponto de máximo afastamento da Terra, o apogeu, a Lua Cheia aparenta estar ligeiramente menor.

Na prática, a diferença de tamanho aparente entre a Lua Cheia no apogeu e a Lua Cheia no perigeu é de cerca de 14%, algo imperceptível sem instrumentos de medida rigorosos. Mas o brilho pode ser até 30% maior, o que significa um luar "turbinado", bastante intenso, capaz de clarear a escuridão da noite em locais afastados das luzes da cidade.

Comparação de tamanho e brilho aparentes na Lua Cheia no apogeu e no perigeu.

 

Colocadas lado a lado, como na montagem acima, as imagens da Lua Cheia no perigeu e no apogeu ficam sensivelmente diferentes. Mas, como já disse logo acima e reafirmo, no "olhômetro" é praticamente impossível alguém notar diferenças no tamanho aparente entre diversas Luas Cheias ao longo de um determinado período, exceto na intensidade do luar que fica bem mais intensa quando a Lua Cheia passa pelo perigeu.

A Lua Cheia de hoje não acontece exatamente no momento da passagem pelo perigeu. Há uma diferença de algumas horas. Mesmo assim, vale dizer que a Lua Cheia estará maximizada em tamanho e brilho aparentes.

Neste post apresento detalhes qualitativos e quantitativos sobre a variação de tamanho e brilho aparentes da Lua vista da Terra. No texto mostro, por cálculos, de onde vem a variação de 14% de tamanho aparente e a variação de 30% no brilho aparente da Lua Cheia por conta de sua posição orbital, ou seja, da distância da Lua até a Terra.

Como observar

Dá para ver o eclipse a olho nu, sem a necessidade de instrumentos. (Fonte: Pixabay)

 

Não tem segredo. E não é preciso nenhum instrumento. Dá para acompanhar tudo a olho nu!

Antes de tudo, torcemos para o céu estar limpo e a Lua Cheia bem visível. Nuvens podem eclipsar o eclipse e estragar tudo! Aqui em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, minha cidade, o céu está bastante nublado. Já choveu mas ainda há muitas nuvens carregadas.

É claro que em locais mais escuros, afastados das luzes da cidade, os detalhes da Lua Cheia ficam mais evidentes. Mas, de qualquer lugar, desde que você esteja vendo a Lua Cheia, o fenômeno será bem perceptível.

Lugar, portanto, não é desculpa para não observar o fenômeno. E a falta de instrumentos como binóculos, lunetas, telescópios, também não. Particularmente, até prefiro observar eclipses lunares a olho nu. No máximo olhar a Lua com binóculos. Mas não é necessário.

Ficou curioso e com vontade de observar? Se puder ficar acordado para ver o fenômeno inteiro, vale a pena. Ele começa às 00h36min e vai até 05h48min. Um longo período, eu sei.

Se não puder atravessar a noite, tente ver pelo menos uma parte do fenômeno. E depois ainda dá para dormir mais um pouco até a hora de pular da cama e assumir os compromissos da segunda-feira cedo.

A fase umbral, com a Lua Cheia sendo "mordida", tem início às 01h33min e termina às 04h50min. Ainda assim, um período longo e só para quem pode ficar acordado na madrugada sem prejuízo aos compromissos da segunda-feira.

Se o seu tempo estiver contado, tente observar apenas a primeira metade do evento, ou seja, de 01h33min, quando a Lua Cheia começa a ser "mordida", até por volta das 3h00min quando a Lua Cheia já estará totalmente eclipsada e bastante avermelhada. Com apenas uma hora e meia de observação, período razoavelmente curto, você vai conseguir observar a parte mais legal do fenômeno. Que tal?

Compartilhe suas imagens e impressões

amos agitar as redes sociais para observarmos o eclipse lunar? (Fonte: Pìxabay)

 

Avise os amigos. Chame a galera. Forme grupos de observação da Super Lua Lua no perigeu de Sangue que ficará avermelhada durante a totalidade do eclipse. Interaja pelas redes sociais!

Tente observar o fenômeno astronômico. E fotografá-lo!

Deixe os seus comentários por aqui.

O mais legal dos eventos astronômicos é a troca de informações, imagens, e impressões! E hoje, com as redes sociais, tudo ficou mais fácil!

Vou tentar observar/fotografar o fenômeno. Se conseguir boas astrofotos, posto na segunda-feira.

De qualquer forma, se o céu estiver limpo, estarei on line no Facebook (tanto no meu perfil quanto na fanpage do blog) comentando e registrando o fenômeno. Se quiser, pode me acompanhar por lá.

 

Abraço do prof. Dulcidio.

E Física e Astronomia na veia!, se possível com céu limpo!


Este texto também foi publicado no Física na veia! (Steemit) neste link.

Para ver ao vivo pela web

Cobertura em tempo real pelo canal Space Today do meu amigo Sérgio Sacani.

Sobre o autor

Dulcidio Braz Jr é físico pelo IFGW/Unicamp onde atuou como estudante e pesquisador no DEQ – Departamento de Eletrônica Quântica no final dos anos 80. Mas foi só começar a lecionar física para perceber que seu caminho era o da educação. Atualmente, além de professor, é autor de material didático pelo Sistema Anglo de Ensino / Somos Educação e pela Editora Companhia da Escola. É pioneiro no Brasil no ensino de Relatividade, Quântica e Cosmologia para jovens estudantes do final do ensino médio e início do curso superior. E faz questão de dizer que, aqui no blog, é professor/aluno em tempo integral pois, enquanto ensina, também aprende.

Sobre o blog

"O Física na Veia! nasceu em 2004 para provar que a física não é um “bicho papão”. Muita gente adora física. Só que ainda não sabe disso porque trocou o conteúdo pelo medo. Se começar a entender, vai gostar. E concordar: a Física é pop! Pelo seu trabalho de divulgação científica, especialmente em física e astronomia, sempre tentando deixar assuntos árduos mais leves sem jamais perder o rigor conceitual, o Física na Veia! foi eleito por um júri internacional como o melhor weblog do mundo em língua portuguesa 2009/2010 pelo The BOBs – The Best of Blogs da alemã Deutsche Welle."