Física na Veia!

Arquivo : julho 2015

Blue Moon! Hoje a lua vai ficar azul?
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Blue_Moon

Lua Cheia fotografada por mim em 6 de março de 2012. Mas não se engane: o tom azulado foi obtido por tratamento no computador!

 

Muita gente comentando que hoje tem Blue Moon. E é verdade!

Mas não se iluda: o nosso satélite natural NÃO SERÁ VISTO EM TONS DE AZUL! Não existe nenhuma razão física especial para que isso aconteça!

Hoje é mais um dia de Lua Cheia. E Luas Cheias são sempre lindas. Inspiradoras. O fato curioso é que teremos a segunda Lua Cheia dentro do mesmo mês. Tivemos uma Lua Cheia em 2 de julho e teremos outra hoje, dia 31 de julho, como podemos conferir no calendário lunar abaixo.

calendario_lunar_julho_2015

Print do Calendário Lunar hospedado em www.moonconnection.com.

 

Blue Moon é somente uma expressão criada para designar a ocorrência da segunda Lua Cheia dentro de um mesmo mês. Logo, não tem nada a ver com a cor do astro que continua sendo iluminado pela luz branca solar, composta por todas as cores do espectro visível.

Portanto, com base na boa Física, garanto que hoje a Lua Cheia vai ter cor de Lua Cheia! Mas vale lembrar que a órbita da Lua ao redor da Terra é elíptica, com a Terra num dos focos. Logo, a distância Terra-Lua pode variar.  E por volta da 1h da madrugada (já do sábado, 1 de agosto) a Lua passará pelo perigeo, ponto de máxima aproximação com a Terra. Dessa forma, teremos uma Lua Cheia bastante brilhante e ligeiramente maior do que a média, o que vai garantir um luar dos bons!

Vale a observação? Vale! Sempre vale a pena olhar pro céu! Mas com os pés no chão, sempre ancorados na boa Ciência. Nada de acreditar em Lua azulada ao pé da letra. Certo?

Vou observar/fotografar a segunda Lua Cheia do mês de julho nascendo daqui da janela do meu apartamento, de frente pra serra, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. O espetáculo começa por volta das 18h10min. Posto os registros fotográficos mais tarde, na galeria abaixo. Combinado?

Observe você também. E depois vem contar aqui no blog como foi a sua experiência com a Blue Moon.

O UOL vai montar um álbum especial com melhores imagens da Blue Moon feitas pelos internautas. Participe! Envie para o Whatsapp da redação do UOL Notícias. O número é  (11) 97500-1925.

Eclipse Lunar Total: contagem regressiva

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Resultado da cobertura do eclipse lunar total de 21 de dezembro de 2010 feita aqui no blog. Clique para
abrir versão em maior resolução.

Fica aqui, desde já, o convite para você leitor do blog: eclipse lunar total em 27 de setembro de 2015.

Vamos armar uma enorme observação astronômica coletiva via web? Em breve posto mais informações.

Já fiz outra coberturas de eclipses lunares aqui no blog. Confira uma delas aqui. Foi sempre muito divertido!

 


Galeria da Lua Cheia de 31 de julho de 2015 [Blue Moon]

Blue Moon nascendo por trás da serra, por volta das 18h30min. Nem azul nem prateada. Amarelada. Efeito da poluição atmosférica. Quando estiver mais alta no céu ficará prateada, como sempre.

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Lua Cheia nascendo por trás da serra. Clique para abrir versão maior.

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Lua Cheia nascendo por trás da serra. Clique para abrir versão maior.

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Lua Cheia nascendo por trás da serra. Clique para abrir versão maior.

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Lua Cheia nascendo por trás da serra. Clique para abrir versão maior.

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Lua Cheia já mais alta no céu, agora com zoom máximo da câmera.

Já um pouco mais alta, a cor amarelada da Lua Cheia vai desaparecendo, como esperado.

 

Ajustei a câmera para mostrar a intensidade do luar que “desenha” o perfil da serra. “Matei” o relevo lunar. Mas consegui registrar a Lua Cheia parecendo um farol, iluminando todo o meu bairro!

 

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Que luar intenso. Lindo! Veja como ele “desenha” a serra. Clique para abrir versão maior.

Parafraseando Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco na tradicional canção “Luar do Sertão”, só posso dizer:

“Não há, ó gente, ó não,

Luar como esse de São João!”

Agora que mostrei como está o luar aqui na minha terra, diga aí como está na sua!

Confira abaixo uma animação com 12 imagens das Lua Cheia nascendo por trás da serra.


Álbum do UOL

  • Blue Moon pelo mundo todo, inclusive no Brasil

 

Já pulicado no Física na Veia!

 


Plutão: mais imagens e novidades
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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Plutão em detalhes. Mosaico divulgado hoje, 24/julho, feito a partir e quatro imagens distintas.
Fonte: NASA.

 

A equipe de cientistas da NASA, responsável pela missão New Horizons, liberou novas imagens e informações sobre Plutão colhidas recentemente pela sonda em aproximação com o planeta-anão entre os dias 13 e 14 de julho.

A imagem acima (veja a original em maior resolução), feita em 13/julho mas só divulgada hoje, é incrível! Ela foi capturada a 480 000 km de distância, quando a sonda ainda se aproximava do pequeno astro. Mas é bastante rica em detalhes! Nela podemos distinguir sutilezas superficiais de 2,2 km. Trata-se de um mosaico obtido a partir de quatro imagens distintas de todo o globo Plutão feitas em alta resolução em preto e branco pelo instrumento de bordo batizado de LORRI – Long Range Reconnaissance Imager. Combinando o resultado do mosaico com imagens em cores mas em menor resolução feitas pelo Ralph, outro instrumento da sonda, os cientistas conseguem reconstituir as cores reais do astro.

A imagem abaixo, também colhida no dia 13/julho, poucas horas antes da máxima aproximação com Plutão, mostra o planeta-anão e Caronte, a maior de suas cinco luas. Ela é considerada até o momento como o melhor “retrato de família” obtido pela mesma técnica que combina dados dos dois instrumentos (LORRI e Ralph).

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Plutão e Caronte: “retrato de família”. Fonte: NASA.

Em coletiva de imprensa hoje cientistas da New Horizons revelaram evidências de possíveis correntes de gelo na porção norte da região de Plutão em forma de coração (imagem abaixo). Confira outras imagens em close-up e mais informações aqui.

Evidências do movimento de gelo na superfície de Plutão. Fonte: NASA.

Evidências de movimento de gelo na superfície de Plutão. Fonte: NASA.

Vale lembrar que todos os dados colhidos pela New Horizons em trajetória de aproximação com Plutão e também no voo rasante sobre a superfície do planeta-anão foram armazenados no sistema de computadores da sonda. O centro de controle tem que recuperar tudo o que foi registrado fazendo download do material digital. Como a sonda passou por Plutão e está se afastando cada vez mais do Sol (e também da Terra), os sinais eletromagnéticos portadores das informações vão demorar cada vez mais para chegar ao centro de controle, mesmo viajando a quase 300 000 km/s, a velocidade da luz no vácuo. Serão ainda muitos dias de trabalho e expectativa!

 

[Atualização – 25/julho/2015 – 14h38min]

Outra imagem linda e, especialmente, significativa, também feita pelo Long Range Reconnaissance Imager (LORRI). Confira.

Plutão, iluminado pelo Sol por trás mostra apenas uma silhueta negra. Mas fica bem evidente a sua atmosfera em forma de anel brilhante que envolve o globo do astro. Fonte: NASA.

Plutão, iluminado pelo Sol por trás. Vemos apenas uma silhueta negra. Mas fica bem evidente a sua atmosfera, uma espécie de névoa, em forma de anel brilhante que envolve o globo do astro. Fonte: NASA.

Não entendeu a curiosa imagem?  Explico. Podemos ver a silhueta escura de Plutão, agora retroiluminado pelo Sol. A atmosfera, ao redor do astro, aparece como um anel de névoa brilhante.

O registro foi feito a cerca de 2 milhões de quilômetros de Plutão, poucas horas depois da máxima aproximação com o planeta-anão. Mas chegou ao centro de controle, via download, no dia 23 de julho.

Segundo os cientistas, há duas camadas distintas na atmosfera. A primeira, junto à superfície, com cerca de 80 km de espessura. E uma segunda, sobreposta, com espessura de 50 km.

Clique aqui para abrir imagem direto do site da NASA em maior resolução.

Por que antes víamos imagens de Plutão iluminado e agora só vemos a sua silhueta?

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Durante a aproximação a sonda New Horizons (NH) estava entre o Sol e Plutão e “via” a face iluminada (dia) do planeta-anão. Agora, em afastamento, só consegue “ver” a face não iluminada (noite) de Plutão.

 

Como ilustrado acima, propositalmente fora de escala, até a máxima aproximação com Plutão o Sol ficava “às costas” da sonda New Horizons (NH), iluminando completamente a face de Plutão voltada para seus instrumentos. A sonda estava entre o Sol e Plutão. E “enxergava” a superfície de Plutão completamente iluminada pela luz solar, ou seja, onde era dia.

Mas a New Horizons (NH) ultrapassou Plutão depois do sobrevoo rasante em 14 de julho. E segue viagem, afastando-se cada vez mais do Sol (e de Plutão, obviamente).

A partir de então, Plutão é que está entre o Sol e a sonda. A sonda teve que girar para continuar “olhando” para Plutão que ficou para trás. E agora só consegue “ver” o lado do planeta-anão não iluminado, ou seja, a superfície de Plutão onde é noite.

Deu para entender?

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Continuo ligado nas novidades da New Horizons, aqui no blog e também na fanpage no Facebook. Vem comigo?


Como vemos o Cruzeiro do Sul?
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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As cinco principais estrelas do Cruzeiro do Sul, como visto daqui da Terra. À esquerda simulação (S)
em computador e à direita uma fotografia real (R). Partindo do pé da cruz (a estrela alfa, de maior
magnitude), sempre em sentido horário, as magnitudes das estrelas vão diminuindo. A quinta estrela,
fora da cruz, épsilon, é a mais “fraquinha” de todas as cinco principais.

 

Ontem, enquanto eu fazia um mosaico de fotografias do céu reconstruindo a cena dos “três cruzeiros” (veja post anterior), lembrei que meu passaporte acabou de vencer. Eu havia lido por esses dias (acho que nessa matéria da Folha de São Paulo) que um novo modelo de passaporte brasileiro,  mais caro, mais seguro, e com maior validade, já está valendo desde o começo de julho. Acho que o gatilho da lembrança veio do fato de que o novo passaporte tem uma representação do Cruzeiro do Sul na capa.

Fui conferir as informações sobre o novo documento nacional. E então notei que a constelação do Cruzeiro, sob o ponto de vista terrestre, aparece invertida na capa do passaporte!

Compare você mesmo. Acima vemos o Cruzeiro do Sul como é observado a olho nu a partir da Terra. A imagem da esquerda é uma simulação (S) em computador e a da direita uma fotografia real (R) feita por mim. Note que a quinta estrelinha, vista a olho nu sempre como sendo a mais “fraquinha” do grupo, oficialmente catalogada como épsilon Crux e carinhosamente chamada de “intrometida”, vista da Terra (de onde é bom que se diga eu fiz a foto) fica sempre do lado direito.  Mas no desenho da capa do novo passaporte brasileiro (abaixo) aparece do lado esquerdo, num estranho efeito de espelhamento.

cruzeiro_do_sul_passaporte

A imagem do Cruzeiro do Sul, na capa do novo passaporte brasileiro, aparece “espelhada”, com a estrelinha epsilon no lado trocado.

 

A imagem do Cruzeiro do Sul estampada na capa do passaporte é como a constelação seria vista de um ponto do espaço, muito distante da Terra. Muito estranho! Por que essa concepção “extraterrestre”?  Inspiração de ETS que por aqui passaram e já viram o mesmo cenário de outro ponto de vista? Não. Não vamos viajar em teorias malucas … Deve haver uma boa explicação. Provavelmente bem simples. Vamos atrás dela.

Você sabe que na bandeira nacional brasileira há a representação de uma parte da abóboda celeste, não sabe? O Cruzeiro do Sul também está representado na bandeira nacional.  Lembra de memória como ela é? Eu não lembrava. Dei uma pesquisada e a encontrei. Veja abaixo, com todas as atuais 27 estrelas.

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AS 27 estrelas da bandeira brasileira. Fonte: Wikipedia.

 

Reparou na “coincidência”? Sim! Na bandeira brasileira o Cruzeiro do Sul também tem a “intrometida” (estrela número 13) à esquerda. Mais uma vez vamos evitar “viagens” e teorias de conspiração. 13 é o número do principal partido governista. Partido de esquerda. Ok! Mas é só uma coincidência! Certo? Vamos adiante…

A nossa bandeira é linda! Não tem como negar. E é um símbolo oficial do nosso querido país. Mas é bom que se diga que essa representação do céu, propositalmente, não é realística. A ideia original da abóboda celeste representada por um círculo azul na bandeira era a de mostrar a configuração do céu da cidade do Rio de Janeiro às 8h30min  do dia 15 de novembro de 1889, data da Proclamação da República. Confira o artigo terceiro, parágrafo primeiro, da Lei número 5700 de 1 de setembro de 1971 que define os símbolos nacionais, dentre os quais a nossa bandeira. Fica claro, pela Lei, que esse “espelhamento” do Cruzeiro do Sul e das outras constelações contempladas na bandeira é intencional. Está explícito no texto que “As constelações (…) devem ser consideradas como vistas por um observador situado fora da esfera celeste”.

Vale também observar que, como o Cruzeiro do Sul é a menor das 88 constelações catalogadas pela União Astronômica Internacional, na nossa bandeira ele aparece exageradamente maior em relação às outras constelações, provavelmente por uma questão estética. A ideia era a de representar o céu, sem ser necessariamente uma carta celeste.

Pronto. Tudo Explicado! E de forma simples. O “espelhamento” do céu foi escolha dos criadores da bandeira. Talvez eu tivesse optado por representar o céu como o vemos. Mania de professor de ser sempre “certinho”. Mas os criadores da bandeira pensaram diferente. Não se fala mais nisso. Logo, o Cruzeiro do Sul da capa do novo passaporte brasileiro deve ter seguido o mesmo critério, inspirado na bandeira brasileira.

Vale também destacar que a primeira bandeira nacional brasileira foi oficializada pelo Decreto número 4 datado de 19 de novembro de 1889. Por isso mesmo o dia 19 de novembro é o Dia da Bandeira. Havia inicialmente 21 estrelas. A versão mais recente data de 11 de maio de 1992 e contempla 27 estrelas (1 para representar o Distrito Federal e 26 para os estados da federação).

 

Onde mais aparece o Cruzeiro do Sul?

O Cruzeiro do Sul é a constelação mais importante do hemisfério sul. Logo, aparece em inúmeros lugares. Vou citar alguns.

Se você torce para o Cruzeiro Esporte Clube, time de futebol tradicional de Belo Horizonte, MG, certamente se lembra com muita clareza como é o belo escudo azul. Para quem não é cruzeirense, reproduzo-o logo abaixo.

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Escudo oficial do Cruzeiro Esporte Clube.

Note que no escudo do Cruzeiro Esporte Clube o Cruzeiro do Sul é representado exatamente como o vemos daqui da Terra, com a “intrometida” para a direita.

Outros países do hemisfério Sul terrestre também estampam o Cruzeiro do Sul em suas bandeiras. Veja dois exemplos.

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Austrália e Papua-Nova Guiné também trazem o Cruzeiro do Sul em suas bandeiras.

 

Mas, diferentemente da bandeira brasileira, as bandeiras da Austrália e de Papua-Nova Guiné mostram a “intrometida” sempre à direita, exatamente como na visão terrestre. Veja aqui outras diversas bandeiras, nacionais e internacionais, que estampam a constelação do Cruzeiro do Sul.

A bandeira do Mercosul (já me desculpando pelo trocadilho infame) parece não querer se “intrometer” nessa história polêmica da “intrometida”. Ela também mostra o Cruzeiro do Sul. Mas só com quatro estrelas, todas representadas do mesmo tamanho aparente, sem nenhuma distinção de magnitude!

cruzeiro_do_sul_mercosul

A bandeira do Mercosul tem o Cruzeiro do Sul sem a “intrometida”.

 

O Cruzeiro do Sul é mesmo uma “cruz de estrelas”?

Não, não é! As estrelas do Cruzeiro do Sul (e de qualquer uma das 88 constelações oficiais) não estão no mesmo plano. Constelação são agrupamentos aparentes de estrelas só vistos daqui do nosso referencial, a Terra.

Em outras palavras, vistas daqui do nosso planeta algumas estrelas parecem fazer parte de um agrupamento. Mas isso não passa  de ilusão pois, numa mesma constelação, estrelas podem estar muito mais próximas ou muito mais distantes da Terra. E podem nem mesmo estar gravitacionalmente ligadas.

Para se ter uma ideia de como é isso, veja a ilustração abaixo com informações do próprio Cruzeiro do Sul.

Dados diversos do Cruzeiro do Sul. Imagem retirada de um slide de uma de minhas aulas de Astronomia.

Dados diversos do Cruzeiro do Sul. Imagem retirada de um slide de uma de minhas aulas de
Astronomia. Clique para abrir versão maior.

Note que a “intrometida” é a estrela mais próxima da Terra, a cerca de 59 aos luz. Beta Crux é a mais distante dentre as cinco principais estrelas. Para um observador na Terra, a olho nu, não há como saber nem mesmo estimar a distância real das estrelas. Por mera ilusão, todas parecem estar a uma mesma distância dos olhos do observador, formando uma cruz. Mas não estão.

Logo, se a “intrometida” (épsilon Crux) está representada para a direita ou para a esquerda, nem é tão importante. Tudo depende  “de onde” espiamos as estrelas.


A noite dos três cruzeiros
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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Simulação do céu mostrando os “três cruzeiros”: 1- Cruzeiro do Sul (real), 2- Falso Cruzeiro, 3-Cruz
formada pela conjunção da Lua com os planetas Vênus e Júpiter mais a estrela Regulus da constelação
de Leão.

 

Se você olhou para o céu hoje, logo ao entardecer, deve ter notado uma cena parecida com essa aí de cima simulada em computador (“O”, em vermelho, marca o ponto cardeal Oeste).

Além do Cruzeiro do Sul, constelação típica do céu do hemisférico sul e do falso cruzeiro (que não é uma constelação mas apenas um asterismo que fica perto do Cruzeiro do Sul e lembra o próprio), havia um outro “cruzeiro”. É que a Lua crescente (só uma “casquinha”) mais os planetas Vênus e Júpiter e a estrela Regulus (da Constelação de Leão) estiveram em conjunção e por isso foram vistos próximos no céu formando um “terceiro cruzeiro” temporário, observável apenas hoje!

Foi lindo! Fui ver. E fiz alguns registros fotográficos que compartilho logo abaixo com você caríssimo(a) leitor(a) do Física na Veia! Se quiser abrir uma versão em maior resolução, clique sobre a foto.

Começo mostrando uma foto com bastante zoom, enquadrando os quatro astros.

Conjuncao_LVJR_18jul2015_00a

Os quatros astros com bastante zoom: 1-Lua, 2-Vênus, 3-Regulus e 4-Júpiter.

 

Nessa segunda imagem dá para perceber o céu ainda um pouco claro. Mas os astros bastante brilhantes já se destacam formando o “terceiro cruzeiro”.

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O céu ainda estava claro. Mas já dava para ver bem o “terceiro cruzeiro”.

 

O “terceiro cruzeiro” acima, à direita, na próxima imagem, enfeita o céu da minha querida São João da Boa Vista, interior de São Paulo, ao fundo, sob crepúsculo.

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São João da Boa Vista, conhecida como a “Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos”, fazendo jus ao
nome e enfeitada pelo “terceiro cruzeiro”.

 

E finalmente um panorama mostrando as luzes da cidade ao fundo, com o céu já quase que totalmente escuro, e o “terceiro cruzeiro” bem baixo no céu.

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Panorama mostrando a mesma cena da imagem anterior, mas agora com o céu praticamente escuro.

 

Destaco ainda mais uma imagem curiosa. Enquadrei a Lua e Vênus com bastante zoom. E usei longa exposição para ver a luz cinérea da Lua.

Não sabe o que é isso? Note que, embora a Lua esteja sendo iluminada pelo Sol por baixo e por isso mesmo seja vista a olho nu apenas como uma “casquinha”, com a maior captura de luz fruto da longa exposição percebemos claramente o relevo superficial na porção da Lua que não recebe luz direta do Sol.

Por que isso acontece? Essa porção da Lua não deveria ser totalmente escura? Deveria. Mas a Terra, que também está sendo iluminada pelo Sol e é um corpo opaco, reflete uma porcentagem da luz que recebe do Sol de volta para o espaço. Uma fração dessa luz solar refletida pela Terra acaba atingindo a Lua e iluminando a sua parte escura, ainda que de forma bastante sutil. Assim como temos o luar (luz do Sol refletida pela Lua e que atinge a Terra à noite), temos o oposto, a luz cinérea, luz do Sol refletida pela Terra e que ilumina a região da Lua onde é noite, ou seja, não está chegando luz direta do Sol. Interessante, não?

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Vênus, acima, e Lua Crescente abaixo onde percebemos nitidamente a luz cinérea.

 

Frustração

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Simulação mostrava o cometa C/2014 Q1 Panstarrs logo abaixo do “terceiro cruzeiro”.

Pela simulação que fiz do céu para hoje, o cometa C/2014 Q1 Panstarrs estaria pouco abaixo do “terceiro cruzeiro”. Estaria não, esteve! Mas, de luz muito tênue, eu já sabia que não daria para observá-lo a olho nu. E acabei esquecendo de levar meu binóculo!

Mas tinha a esperança de capturá-lo nas fotos de longa exposição. Como ele estava muito baixo no horizonte, ainda competia com a luz do crepúsculo!

Vou analisar todas as imagens que fiz, mais de cem, com cuidado. Quem sabe, sem querer querendo, o bichinho não acabou caindo na minha arapuca de fótons?

Veja linda imagem feita por Yuri Beletsky Nightscapes ontem e que publiquei hoje na fanpage do blog no Facebook (dica do meu amigo Gustavo Rojas, astrofísico da UFSCar). É de babar!

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Agradeço ao amigo Marco Aurélio que nos hangouts do Astronomia ao Vivo dessa semana deu a dica sobre esse curioso fenômeno! E aproveito para ratificar: se você gosta de Astronomia e não conhece os hangouts desse grupo, está perdendo uma grande oportunidade. Se liga! Tem programa todas as terças à noite e especiais quando existem eventos importantes. Nessa semana, por exemplo, houve vários especiais sobre Plutão e a sonda New Horizons.

Mosaico com os “três cruzeiros”

[atualização 21/julho/2015 ~ 16h26min]

 

Como prometido, fiz uma foto panorâmica, do horizonte sul até o horizonte oeste, mostrando a cena completa com os três cruzeiros: Cruzeiro do Sul (verde), falso cruzeiro (vermelho) e cruzeiro temporário (amarelo) formado pela Lua, pelos planetas Vênus e Júpiter e pela estrela Regulus. É a mesma cena lá no topo do post. Só que agora com imagens reais. A imagem lá em cima é apenas uma simulação feita no computador.

Clique na imagem abaixo para abrir o mosaico (jpg com 2400 pixels x 1330 pixels ~ 350 kb).

Tres_Cruzeiros_Mosaico_legendado

Cruzeiro do Sul (verde), falso cruzeiro (vermelho) e cruzeiro temporário (amarelo). Clique para abrir versão 2400 pixels x 1330 pixels.

 

Sobre o cometa C/2014 Q1 Panstarrs (veja subtítulo “Frustração” logo acima), consegui fotografá-lo logo na noite seguinte (19/julho). Ainda não foi de um local ideal, bastante escuro. Mas, bem no limite da minha câmera e das condições do céu, fiz essa imagem (publicada no meu perfil do Facebook e também na fanpage do blog). Não é nada fantástica. Mas para ver um borrãozinho com cauda, caracterizando o cometa. Nas outras noites o céu esteve nublado. Ainda quero tentar registros fotográficos melhores se der céu limpo nos próximos dias.

Publiquei, na fanpage do blog no Facebook, algumas imagens do cometa feitas com equipamentos profissionais. O “borrãozinho”, visto em melhores condições, é lindo! Dá para ver as duas caudas: a de íons e a de poeira. Vale a pena. Aproveite! E, depois de ver as imagens, deixa o seu CURTIR. Seguindo a fanpage você vai receber novidades diárias de Física e Astronomia.


Já publicado no Física na Veia!


Plutão: o show continua!
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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Detalhes da jovem planície congelada dentro da Tombaugh Regio. Fonte: NASA.

 

Coletiva de imprensa com os cientistas responsáveis pela missão New Horizons transmitida ao vivo hoje pela NASA TV a partir das 14h (horário de Brasília) trouxe novas imagens e dados reveladores sobre Plutão.

O registro fotográfico acima mostra detalhes dentro da grande mancha em forma de coração na superfície de Plutão que já ficou famosa (e até virou meme). Essa região tem sido chamada de “Tombaugh Regio” em homenagem a Clyde Tombaugh, o descobridor de Plutão em 1930.

Na imagem em close-up podemos observar uma extensa região plana,  congelada e sem crateras que, pelas suas características, aparenta ser geologicamente jovem, ou seja, não ter mais do que 100 milhões de anos. Dados da espectroscopia revelam a presença de monóxido de carbono, metano e nitrogênio solidificados a baixíssima temperatura.

Basta um olhar mais atento na imagem para perceber que ela é feita de “células” irregulares de aproximadamente 20 milhas (pouco mais de 30 quilômetros). Os cientistas trabalham com duas hipóteses para a formação desse padrão: 1) contração dos materiais superficiais, algo semelhante ao que ocorre quando a lama seca, ou 2) convecção, movimento de matéria por conta da diferença de densidade causada pela diferença de temperatura entre várias camadas superficiais.

Também podemos distinguir na imagem faixas escuras com dezenas de quilômetros de comprimento. Elas podem ter sido desenhadas pelo vento sobre a superfície.

Clique aqui para abrir noutra janela a reveladora imagem em maior resolução. E leia artigo oficial da NASA.

Daqui para frente vai ser assim. Teremos muitas outras coletivas de imprensa e inúmeros outros artigos publicados revelando mais imagens e novíssimos dados científicos sobre Plutão e seu sistema de luas. O voo rasante da New Horizons no último dia 14/julho rendeu um banco de dados para ser estudado e entendido ainda por muito tempo pelos pesquisadores.

O Física na Veia! está cobrindo essa espetacular missão científica de perto desde o dia 14.  Role a página para baixo e confira outros post recentes sobre a New Horizons. E continue ligado em todas as novidades sobre essa incrível missão em tempo real através da fanpage do blog no Facebook.

E para encerrar o show de hoje: animação mostrando o sobrevoo da New Horizons sobre as montanhas e planícies geladas da superfície de Plutão. Mais imagens de cair o queixo! Vamos de carona com a sonda!


Para saber mais

  • Nesse post, do dia 14/julho, falei sobre os sete instrumentos de bordo do sonda New Horizons.  Um deles, o SWAP (Solar Wind Around Pluto) foi projetado e construído para estudar a interação do vento solar com a atmosfera de Plutão. Confira artigo oficial mostrando os resultados preliminares das medidas feitas pelo SWAP.
  • Outro instrumento, o Ralph (Visible and infrared imager/spectrometer), detectou a presença de monóxido de carbono congelado na superfície de Plutão. Leia o artigo.

Caronte em close-up: detalhes incríveis!
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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Caronte, a maior das cinco luas de Plutão, com um pedaço da sua superfície em detalhes.
Crédito: NASA-JHUAPL-SwRI

 

A NASA divulgou hoje, 16/julho, a incrível imagem acima. Mais um aperitivo do genial trabalho da missão New Horizons que teve ontem o seu ponto máximo! (Clique aqui para abrir a imagem, noutra janela, com mais resolução)

Na foto temos uma visão geral de Caronte, a maior das cinco luas de Plutão, com um recorte retangular mostrando detalhes do relevo de uma região da superfície do satélite.

A imagem em close-up foi feita a uma distância de 79 000 km quando a sonda New Horizons estava a 1h30min do ponto de máxima aproximação com a superfície de Plutão.

A NASA avisa que a imagem está bastante compactada. Fico imaginando a riqueza de detalhes colhidos pela New Horizons em inúmeras imagens sem compactação!

Chamou a atenção dos cientistas uma depressão com um pico no meio. Viu? Olhe no canto superior esquerdo do retângulo amarelo com a imagem em close-up. Formação bastante diferente, no mínimo curiosa! Não quero dar ideia pra ninguém. Mas não duvido que logo possam aparecer os colecionadores de figurinhas de disco voador dizendo ser a prova de mais uma base de ETs que viram de camarote a aproximação da sonda vinda da Terra!

Amanhã, sexta-feira, às 13h (horário de Brasília), acontece nova coletiva de imprensa com os cientistas responsáveis pela missão New Horizons. Certamente teremos mais informações e outras imagens incríveis. E o mais legal é que, com o arsenal de fotos e dados colhidos tanto de Plutão quanto de Caronte, teremos ainda por muito tempo muitas novidades sendo publicadas pela NASA aos poucos. Como essa bela e inesperada foto publicada hoje!

Estou achando bem divertido acompanhar a New Horizons em tempo real. Desde as primeiras imagens de Plutão, foi quase como estar de carona com a sonda, vendo a “bolinha” crescendo cada mais mais na nossa frente!

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Montagem com imagens entre junho e julho mostrando Plutão cada vez maior e mais nítido com a
aproximação da sonda.

 


Plutão em close-up: imagens de cair o queixo!
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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A primeira imagem de Plutão em close-up e em alta resolução. Fonte: NASA TV.

 

Sensacional a imagem (acima) de Plutão em close-up e em alta resolução! Ela foi feita pela sonda New Horizons ontem durante o voo rasante no planeta-anão! Dá para ver montanhas, vales, planícies! Aquela bolinha distante agora tem relevo!

Até ontem, a melhor (mais nítida e detalhada) imagem de Plutão, também registrada pela New Horizons, era essa logo abaixo e que publiquei no post anterior. Já dava para perceber o relevo.

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Imagem de Plutão feita pela New Horizons e divulgada pela NASA pouco antes do mergulho para o voo
rasante de aproximação realizado ontem. Fonte: NASA.

Muita gente dizia ver um coração na superfície do planeta-anão. Não demorou para surgirem memes na web. Veja aqui em álbum do UOL.

Passamos (pelo menos eu passei!) todo o dia de ontem (14/julho) na expectativa de saber se o ponto alto da missão New Horizons havia se completado com sucesso. No período da noite, coletiva da NASA informou que a sonda havia retornado um sinal positivo confirmando que tudo tinha ocorrido perfeitamente bem. Haviam sido feitas novas imagens de Plutão a 12500 km de distância. E novos dados haviam sido coletados. Estava tudo registrado no sistema.  Era só fazer download do material.

Hoje de manhã os cientistas puderam ver pela primeira vez as fotos de Plutão em close-up. Olha a cara do Alan Stern, líder da missão, sentado ao centro!

Alan_Stern_NewHorizons

Olha a expressão de espanto do Alan Stern, chefe da missão New Horizons, ao ver hoje de manhã, pela primeira vez, as imagens de Plutão em close-up! Fonte: NASA.

A imagem acima, publicada a menos de 1h da coletiva em que a NASA prometia divulgar novas imagens e informações sobre a New Horizons, serviu para aguçar ainda mais a curiosidade de todos que, como eu, gostam de astronomia e acompanharam de perto a missão!

Pouco depois das 16h (horário de Brasília), finalmente, começamos a ter acesso às novas informações e imagens na coletiva de imprensa veiculada ao vivo pela NASA TV.

New_Horizons_coletiva15julho2015

Coletiva de imprensa da NASA, às 16h (horário de Brasília) de hoje, com as novas imagens e informações sobre o voo rasante em Plutão. Fonte: NASA TV.

 

Sempre pressa, os cientistas foram mostrando e comentando as imagens. Os registros fotográficos da missão são de cair o queixo!

Olha só a riqueza de detalhes em Caronte, a maior das cinco luas de Plutão!

New_Horizons_Caronte

Caronte, a maior das cinco luas de Plutão, em detalhes. Fonte: NASA TV.

Hydra, outra das cinco luas de Plutão, abaixo, foi fotografada pelo instrumento LORRI – Long Range Reconnaissance Imager.

New_Horizons_Hydra

A munúscula lua Hydra tem forma de batata. Fonte: NASA.

O que era antes apenas um pontinho, agora tem “cara de batata”. Pode parecer apenas um aglomerado de poucos pixels. Mas o pequeno satélite mede cerca de 43 km X 33 km. É minúsculo! É tão pequeno, com tão pouca massa, que não tem gravidade suficiente para ter forma esférica. E foi registrado a cerca de 650 000 km de distância. Veja artigo da NASA sobre esse registro de Hydra.

O melhor ficou para o final: a mais esperada imagem, a que está lá no topo desse post. O pequeno vídeo abaixo mostra de forma bem didática a que parte da superfície de Plutão ela corresponde. .

Imagens incríveis!!! Concorda? Elas justificaram a cara de espanto de Alan Stern e todo o clima de expectativa que havia no ar antes da coletiva de imprensa. Deixe o seu comentário e me diga o que achou!

Embora para a maioria dos leigos o que mais importe seja o “álbum de fotografias” da viagem da New Horizons, para os pesquisadores valem ainda mais as inúmeras medidas realizadas pelos sete instrumentos de bordo da sonda. Depois de analisados todos os dados colhidos, o avanço científico a respeito de Plutão e, de quebra, sobre o Sistema Solar, vai ser incrível. Teremos, por muito tempo, artigos e mais artigos publicados sobre a análise desses dados.

Como aperitivo, veja abaixo o resultado de algumas medidas feitas pelo Ralph – Visible and infrared imager/spectrometer.

New_Horizons_metano

Medidas espectrais feitas pelo Ralph apontam abundância de metano sólido em Plutão. Fonte: NASA.

As medidas confirmam abundância de metano no estado sólido na superfície gelada de Plutão. Saiba mais nesse artigo da NASA.

Continuo acompanhando as novidades sobre a New Horizons. Vem comigo? Fique de olho aqui no blog e também na fanpage no Facebook!


Para saber mais


Avisa Plutão que estamos chegando!
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

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Rasante da New Horizons a cerca de 12000 km de Plutão. Visão artística. Fonte: NASA.

 

Em 19 de janeiro de 2006 a sonda New Horizons da NASA foi lançada numa missão para se encontrar com Plutão e seus satélites. Nessa época Plutão ainda era classificado como o nono planeta do Sistema Solar.

Em meados desse mesmo ano a União Astronômica Internacional aprovou uma nova classificação de objetos do Sistema Solar e Plutão foi “rebaixado” (a rigor, reclassificado) como planeta-anão. Apesar de esférico, Plutão, menor do que a nossa Lua, não tem gravidade suficiente para ser astro dominante em sua órbita solar. Para a União Astronômica internacional Plutão é somente mais um objeto do cinturão de inúmeros outros objetos que compõem uma faixa distante e repleta de pequenos astros que os cientistas chamam de Cinturão de Kuiper.

Terra_Plutao_Caronte_escala

Montagem fotográfica mostrando a Terra, Plutão e seu maior satélite, Caronte, em escala real de tamanhos. As imagens dos três astros são reais. Plutão e Caronte já aparecem nessa montagem na melhor resolução fotográfica obtida pela New Horizons até os últimos dias antes da máxima aproximação. Fonte: NASA.

 

Na prática, nada mudou com a reclassificação. Consequentemente, a histórica missão continuou importante pois, Plutão, independente do que pensam os cientistas daqui da Terra, continuou sendo o que sempre foi: o mesmo astro pequeno (veja imagem acima) e distante que, nunca antes visitado por nenhuma sonda humana, era somente um anão desconhecido sobre o qual nem mesmo boas imagens tínhamos. As melhores fotos de Plutão nos revelavam somente uma bolinha sem graça. No melhor dos esforços de imaginação, não dava nem para supor como poderia ser a superfície do astro.

Mas a aproximação gradativa da New Horizons com esse mundinho nos últimos meses nos trouxe muitas informações. As imagens foram ficando cada vez mais nítidas e ricas em detalhes (confira galeria no site da missão). Veja abaixo as melhores imagens de Plutão e Caronte feitas pela New Horizons em 11/julho, já repletas de detalhes!

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“Retrato de família” mostrando Caronte e Plutão. Composição com imagens feita pela New Horizons em 11/julho. Fonte: NASA.

Ainda que via web, foi quase como estar de carona com a sonda! Uma experiência incrível para mim e qualquer pessoa que gosta de Astronomia!

 

Os instrumentos da sonda

New_Horizons_instrumentos

A New Horizons e seus sete instrumentos. Fonte: NASA

 

Embora para os leigos as imagens inéditas e de alta resolução sejam o lado mais legal da missão, para os cientistas elas são apenas o começo da história. A New Horizons está equipada com sete instrumentos, todos desenhados com funções científicas bem específicas. Confira:

Ralph (Visible and infrared imager/spectrometer): câmera e espectrômetro capazes de prover imagens em cores capturadas na faixa visível e também em infravermelho e fazer mapas térmicos.

Alice (Ultraviolet imaging spectrometer): câmera e espectrômetro operando na faixa do ultravioleta capazes de analisar a composição e estrutura da atmosfera de Plutão além de buscar por atmosfera em Caronte e, futuramente, em possíveis outros objetos do Cinturão de Kuiper.

REX (Radio Science EXperiment): radiômetro passivo capaz de medir a composição e temperatura atmosféricas de Plutão.

LORRI (Long Range Reconnaissance Imager): câmera telescópica com a função de mapear Plutão a longa distância e obter dados geológicos.

SWAP (Solar Wind Around Pluto): espectrômetro capaz de estudar a interação do vento solar com a atmosfera de Plutão para tentar medir possível escape de gases para o espaço.

PEPSSI (Pluto Energetic Particle Spectrometer Science Investigation): outro espectrômetro para partículas energéticas capaz de analisar e medir a composição e densidade de íons que talvez escapem da atmosfera de Plutão para o espaço.

SDC (Student Dust Counter):  contador de partículas de poeira que vão se encontrando a sonda durante a sua viagem pelo sistema solar (instrumento  construído e operado por estudantes).

 

14/julho: a grande aproximação

[texto atualizado em 14/julho/2015 – 13h44min]

Viajando a cerca de um milhão de quilômetros por dia, a New Horizons fará um único voo rasante de aproximação com Plutão hoje, 14 de julho de 2015, logo mais às 8h49min (horário de Brasília). A 12500 km da superfície de Plutão, a sonda terá uma única chance para fazer as melhores imagens e medidas de toda a missão que já dura 9 anos e meio. E tudo tem que funcionar perfeitamente bem! Vou ficar torcendo!

Depois disso a sonda seguirá viagem se afastando cada vez mais do Sol e, consequentemente, da Terra, avançando para dentro do Cinturão de Kuiper.

O mais incrível é que a New Horizons é totalmente automatizada porque, quanto mais se afasta da Terra, mais difícil fica de se comunicar com os cientistas. Na  distância em que se encontrará da Terra hoje, cerca de 4,8 bilhões de quilômetros, não há como operá-la em tempo real. é fácil de entender a razão. A comunicação com o centro de controle é feita através de ondas eletromagnéticas que viajam no espaço com a velocidade finita, a mesma velocidade da luz no vácuo, algo em torno de V = 300 000 km/s.

Vamos fazer uma conta rápida para saber quanto tempo Δt um sinal demora para ir da Terra para a nave (e vice-versa) percorrendo a distância ΔS = 4,8 bilhões de quilômetros. Sabemos que V = ΔS/Δt. Logo, Δt = ΔS/V. Assim:

Δt = ΔS/V = (4 800 000 000 km)/(300 000 km/s) = 16 000 s (aproximadamente)  

Lembrando que cada hora tem 3600 s, então temos: Δt = 16 000 / 3 600 = 4,5 h

Pelo cálculo acima fica evidente que um comando enviado do centro de controle da Terra para a sonda levará cerca 4,5 horas para chegar ao seu destino. E, se a sonda responder, a informação levará outras 4,5 horas para voltar ao centro de controle. Inviável operar a sonda com esse “delay” gigante de 9h! Concorda? A New Horizons foi programada para fazer tudo de forma autônoma!

Se tudo correr bem, por volta das 8h49min ela estará fazendo imagens e medidas incríveis, passando bem perto de Plutão. Mas os cientistas, por conta do “delay”, só saberão se tudo deu certo 4,5 horas depois (algo em torno de 13h30min). Imagina a tensão no centro de controle! Mas, pelo enorme sucesso da missão até agora, a chance de erros é mínima. Muito em breve teremos imagens e informações sensacionais sobre o mundinho distante de Plutão! Vamos aguardar!

 

Qual é a distância real entre Plutão e a Terra?

[texto atualizado em 14/julho/2015 – 13h44min]

Essa pergunta, a rigor, não tem resposta única. Isso porque tanto a Terra quanto Plutão orbitam o Sol. Logo, não guardam uma distância única e fixa entre si. Certo?

Usei, no cálculo acima, o valor de 4,8 bilhões de quilômetros (simulado em software para a data de hoje). E tenho visto matérias sobre a New Horizons a afirmação de que Plutão fica a 6 bilhões de quilômetros da Terra. Na verdade, esse é um valor possível (e médio) da distância Plutão-Terra. Mas pode variar para mais ou para menos. Explico a seguir.

Antes de qualquer coisa, a próxima imagem nos mostra as órbitas elípticas dos planetas e de Plutão, planeta-anão, ao redor do Sol em escala real de distâncias. Note como Mercúrio, Vênus, Terra e Marte estão muito próximos do Sol quanto olhamos o Sistema Solar numa escala que contempla a órbita solar de Plutão.

Terra_Plutao_realistico

Representação do Sistema Solar. Imagem gerada com solarsystemscope.com.

 

Consideramos a distância média Terra-Sol como 1 UA (1 Unidade Astronômica, cerca de 149,5 milhões de quilômetros). Esse valor é médio porque a órbita da Terra ao redor do Sol não é uma circunferência perfeita e sim uma elipse. Na prática a Terra pode estar a um pouco mais ou um pouco menos de 1 UA do Sol.

Nessa mesma escala, a distância média Plutão-Sol é de 39 UA. A órbita solar de Plutão também é elíptica, mas muito mais excêntrica (ou ovalada) que a órbita solar da Terra. Assim, a distância Plutão-Sol pode variar entre 29 UA e 49 UA, sendo de 39 UA (quase 6 bilhões de quilômetros) o seu valor médio. Curiosamente, por conta dessa grande variação de distância Plutão-Sol, Netuno pode ficar temporariamente mais distante do Sol do que o próprio Plutão (confira nesse post).

Para facilitar a visualização simultânea das órbitas da Terra e de Plutão ao redor do Sol numa única imagem, de propósito, vou trabalhar fora de escala. E as órbitas, propositalmente, foram aproximadas para circunferências. Combinado?

Temos duas situações possíveis:

Situação I) Terra e Plutão em lados opostos do Sol

Terra_Plutao_max

Simulação de posições no Sistema Solar para o dia 8 de janeiro de 2015. Imagem gerada em solarsystemscope.com. Nesse caso a distância Terra-Plutão é máxima.

Note que, nesse caso, a Terra fica mais distante de Plutão. Para encontrar a distância Terra-Plutão temos que somar as distância Terra-Sol e Plutão-Sol. E ambas são variáveis no tempo, o que complica bastante o cálculo da distância final Terra-Plutão.

 

Situação II) Terra e Plutão do mesmo lado do Sol

Terra_Plutao_min

Simulação de posições no Sistema Solar para o dia 8 de julho de 2015. Imagem gerada em solarsystemscope.com. Nessa caso a distância Terra-Plutão é mínima.

A situação agora é diferente. Note que nessa outra configuração a Terra fica mais próxima de Plutão. Para encontrar a distância Terra-Plutão temos que subtrair a distância Terra-Sol da distância Plutão-Sol. E, como já afirmei acima, para cada data, teremos um valor diferente.

Não vou arriscar fazer  nenhuma conta aqui até porque isso não é tão simples. Teríamos que levar em consideração s excentricidades das órbitas da Terra e de Plutão ao redor do Sol. E ainda considerar que essas órbitas não são coplanares.

Nesse caso é mais fácil simular no computador. O valor da distância Terra-Plutão hoje, 14/julho, é da ordem de 4,8 bilhões de quilômetros (valor que usei acima para estimar o “delay” na comunicação entre a sonda e o centro de controle).

Hoje, no voo rasante da New Horizons em Plutão, Terra e Plutão estarão no mesmo lado do Sol (veja imagem acima que simula as posições no Sistema Solar para 8/julho, data muito próxima de 14/julho). Estaremos a 4,8 bilhões de quilômetros de distância ou quase 9 horas de comunicação com a New Horizons!

Fique atento: se disserem na TV, em jornais ou aqui na web que distância Terra-Plutão é sempre de 6 bilhões de quilômetros, isso está errado! Ela não é de 6 bilhões de quilômetros sempre. Hoje , por exemplo, ela está em cerca de 4,8 bilhões de quilômetros. Mas pode variar para mais ou para menos, dependendo da data. Certo?


 

Atualização [14/julho/2015 – 13h44min]

Plutão_NH_Approach_720

Imagem de Plutão pouco antes do mergulho para o voo rasante de aproximação. Fonte: NASA.

A foto acima foi publicada hoje pela NASA e mostra uma das últimas imagens feitas pela New Horizons antes do mergulho para o voo rasante em aproximação máxima com a superfície de Plutão.


Para saber mais


Já publicado no Física na Veia!


IFGW/Unicamp: cursos de física geral na web
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

IFGW_fisica_basica_cursos

 

Em abril de 2013 postei avisando que o IFGW – Instituto de Física “Gleb Wataghin” da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas estava disponibilizando cursos de física básica na web em parceria com a Univesp TV.

Hoje fui saber como estava esse projeto e descobri que os quatro cursos de Física Geral já estão no ar!

Confira abaixo os links e as ementas de cada um deles:

  1. Física Geral I:

    IFGW_fisica_basica_cursos_FI
    Docente: Luiz Marco Brescansin
    Ementa: Introdução – Movimento em 1D – Vetores; Movimento em 2D – Força e Movimento I (Leis de Newton) – Força e Movimento II (alguns exemplos de forças) – Trabalho e Energia. Conservação de Energia – Sistemas de Partículas. Colisões – Cinemática Rotacional – Movimento de Rotação – Rolamento, Torque e Momento Angular I – Rolamento, Torque e Momento Angular II.

  2. Física Geral II:

    IFGW_fisica_basica_cursos_FII
    Docente: Peter Schulz
    Ementa: Oscilações – Gravitação – Ondas em meios elásticos – Ondas sonoras – Hidrostática e hidrodinâmica – Viscosidade – Temperatura – Calorimetria e condução de calor – Leis da termodinâmica – Teoria cinética dos gases.

  3. Física Geral III:

    IFGW_fisica_basica_cursos_FIII
    Docente: Luiz Marco Brescansin
    Ementa: Carga Elétrica – Lei de Coulomb – Campo Elétrico – Lei de Gauss – Potencial Elétrico – Capacitores e Dielétricos  – Corrente e Resistência Elétrica  – Força Eletromotriz e Circuitos Elétricos – O Campo Magnético – Lei de Ampère – Lei de Faraday da Indução e Indutância  – Oscilações Eletromagnéticas e  Correntes Alternadas – Magnetismo da Matéria e Equações de Maxwell .

  4. Física Geral IV:

    IFGW_fisica_basica_cursos_FIV
    Docente: Carola Dobrigkeit Chinellato
    Ementa: Ondas Eletromagnéticas – Óptica geométrica – Interferência – Difração – Relatividade – Fótons e Ondas da Matéria – Átomos –Condução de Eletricidade em Sólidos – Física e Energia Nuclear – Partículas fundamentais.

 

Para minha surpresa e felicidade, a responsável pelo Física Geral IV é a profa. Dra. Carola Dobrigkeit Chinellato, grande amiga, ex professora, e com quem tive o prazer de aprender os principais conceitos de Física Moderna nas disciplinas de Estrutura da Matéria no anos 80 durante a minha graduação no IFGW. Fiquei contente em vê-la na ativa esbanjando simpatia, conhecimento, e didática exemplar que, aliadas ao seu enorme prazer de ensinar, fazem dela uma professora inesquecível!

Faz um bom tempo que não vejo pessoalmente. Creio que nosso último encontro foi nessa oficina de Física há dez anos.

Em 2002, quando lancei o livro Tópicos de Física Moderna, enviei um exemplar para ela. Tão logo ela recebeu o livro, me ligou eufórica dizendo “sou a avó, sou a avó!”. E ela estava certa! Se sou o pai da obra, ela, que com paciência, dedicação e entusiasmo me ensinou os primeiros passos da Física Moderna é, de fato e de direito, avó do livro! Estou matando saudades da profa. Carola vendo algumas vídeo-aulas dela!

Fica dica. Vídeo aulas imperdíveis!     


Qual é o correto: kWh ou kW/h?
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

kWh_erro_tela

“Print” mostrando infográfico equivocado no “Esporte Espetacular” (Rede Globo).

 

Assisti hoje de manhã ao Esporte Espetacular na Rede Globo aguardando matéria sobre a Fórmula E. Estava curioso para conhecer melhor a nova modalidade de corrida automobilística da FIA que usa carros elétricos. Já ouviu falar? É bem legal!

Três jovens pilotos brasileiros participaram do primeiro campeonato mundial da categoria? Nelsinho Piquet, filho do tricampeão mundial de F1, além de Bruno Senna, sobrinho do inesquecível Ayrton Senna, e Lucas di Grassi. Nelsinho Piquet foi o campeão dessa primeira temporada.

A matéria é bem bacana. Se você não viu no programa, pode assistir por streaming nesse link no site da Globo. Mas alguns errinhos físicos roubaram a minha atenção.

Logo aos 2:34 um infográfico (veja print acima) declarava que a energia armazenada na bateria do carro é de “56 kw/h”. Há dois erros nessa afirmação.

Erro 1) W (watt) deve ser grafado em letra maiúscula. A regra é clara (né Arnaldo?):  unidades de medida que vêm de nome próprio devem ser grafadas em letra maiúscula.

Exemplos:

– N, unidade força, e que homenageia Isaac Newton.

– J, unidade de energia, homenagem a James P. Joule.

– C, unidade de carga elétrica, imortalizando Charles A. Coulomb.

Sendo assim, no infográfico deveria aparecer kW. O prefixo “k” de quilo, que significa “mil vezes”, deve continuar minúsculo. Somente o “W”, homenagem a James Watt, é  maiúsculo.

Mas o erro mais grave nem é esse. Veja a seguir.

Erro 2 – grave)  Energia não deve ser medida em kW/h mas kWh. Pode parecer bobagem. Mas isso muda tudo!

kW.h é quilowatt multiplicado por hora. Já kW/h é quilowatt dividido por hora. Não são nem de longe a mesma coisa!

Potência (P), em Física, é definida como quantidade de energia (ΔE) por intervalo de tempo (Δt): P = ΔE/Δt.

Logo, a energia (ΔE) deve ser dada por potência (P) vezes intervalo de tempo (Δt): ΔE = P.Δt.

Fazendo uma análise dimensional, colocando colchetes nas grandezas sobre as quais queremos saber as unidades, encontramos:

[ΔE] = [P] . [Δt] = kW.h

Simples assim! Energia deve ser medida em kWh e não em kW/h!

kWh_erro

O correto, para medir energia, é kWh.

 

kW/h tem outro significado. É unidade de potência por unidade de intervalo de tempo: kW/h = [P] / [Δt]. Nada a ver com energia, certo?

No exato momento em que vi o erro no ar, tuitei para Glenda Kozlowski, âncora do programa.

Super gentil e rapidamente, Glenda respondeu.

 

Mas o erro não foi corrigido no ar. E ficou por isso mesmo, como (quase) sempre acontece quando se trata de erros físicos em matérias jornalísticas. É incrível como matérias na TV, no rádio, em jornais e revistas, além da própria web, salvo raras e nobres exceções, maltratam a Física!

Acerto) Para que ninguém saia dizendo que afirmei que o infográfico só falou besteira, vale observar que a afirmação de que com a energia de 56 kWh (e não kW/h) daria para usar uma lâmpada por 39 dias está quantitativamente correta. Vamos conferir? Veja os cálculos abaixo, supondo uma lâmpada de potência P = 60 W e sabendo que cada dia tem 24 h:

ΔE = P.Δt = 60 W . 39 dias . 24 h / dia = 56 160 Wh = 56,16 kWh (praticamente 56 kWh).

Os outros dois valores (para a máquina de lavar louças e para a TV) também parecem estar corretos. Tente provar que sim! (Como professor adoro passar “lição pra casa”!)

Destaco que outro erro físico ainda acontece na matéria. Esse confesso que só descobri revendo o vídeo pelo site.

Erro 3) O repórter Cássio Barco, aos 3:11, quando fala das novidades no regulamento da Fórmula E, diz “Uma dessas inovações é na interatividade. Os três pilotos mais bem votados na internet ganham potência extra na prova, ou seja, o contato com o público pode fazer a diferença no desempenho numa corrida”. Ele está se referindo ao FanBoost. Aparece uma fã inglesa falando sobre seu ídolo Bruno Senna e o repórter, a seguir, completa “Com o FanBoost o piloto ganha trinta quilowatts.hora de potência para usar por cinco segundos duas vezes na corrida…”.

Onde está o erro? Não percebeu? Ele é bem sutil. Está na parte que destaquei em negrito. Note que o repórter fala sobre potência extra (e não energia extra). Se é potência extra, deveria dizer que cada piloto (a rigor cada carro) ganha 30 kW (quilowatts) de potência e não 30 kWh (quilowatts.hora). Se ganhasse 30 kWh (quilowatts.hora) estaria recebendo uma carga elétrica extra na bateria, o que seria equivalente num carro convencional de corrida a receber mais combustível no tanque ou, em outras palavras, mais energia. Entendeu a ideia?

Não é fácil ser fisicamente correto! Até a FIA erra no site oficial da Fórmula E quando explica o FanBoost, como mostra o print abaixo (já com o erro destacado em vermelho).

kWh_fanboost

“Print” do site da fórmula E (FIA).

Note que no texto a potência padrão do carro está com a unidade grafada em letra minúscula, o que contraria as regras de grafia de unidades de medida. Deveria ser 150 kW (e não 150 kw). Com o FanBoost o carro recebe 30 kW de potência extra e fica com 180 kW (e não 180 kw). Certo?

Essa confusão com kWh e kW/h, infelizmente, é bem comum. Já bloguei sobre o assunto várias vezes. Destaco aqui dois dos meus textos dentro do tema: Se liga nas unidades de medida I e Se liga nas unidades de medida II.


Para saber mais sobre a nova categoria de automobilismo


Já publicado no Física na Veia!


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