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Blog Física na Veia

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Qual é a cor do vestido?

Prof. Dulcidio Braz Júnior

27/02/2015 14h53

tumblr_swiked_vestido

A foto original do vestido que deu o que falar

 

Quais as cores do vestido da foto acima? Algumas pessoas dizem que é azul e preto. Outras juram que é branco e dourado. Há quem diga que olhou a foto pela primeira vez e viu azul e preto. Mais tarde, ao olhar novamente, viu um vestido branco e dourado!

Essa foto ficou famosa na internet entre ontem (quinta-feira) e hoje (sexta-feira). A usuária Skiwed do Tumblr publicou a imagem e logo as pessoas começaram a comentar sobre as cores da roupa. Mas os comentários não batiam! E criaram um verdadeiro paradoxo das cores. Não demorou muito para a foto se tornar o principal assunto nas redes.

Que cores você vê quando olha a imagem do vestido? Deixe o seu comentário aqui no blog.

Aproveito a polêmica para tentar dar uma explicação científica para o paradoxo das cores do vestido. Acompanhe o raciocínio a seguir.

 

A "leitura" das cores na câmera fotográfica

Antes de tudo, uma foto é apenas uma "leitura muito particular" que um equipamento (câmera fotográfica) faz da realidade. Antigamente era um filme fotográfico que registrava a imagem. Hoje em dia são sensores digitais baseados no efeito fotoelétrico .

Essa "leitura" da realidade, seja feita por um filme ou por um sensor fotoelétrico, nem sempre é tão real. Todo mundo já deve ter tido a experiência de tirar uma foto e ela sair amarelada ou azulada demais. Nas câmeras digitais, a grande vantagem é que dá para ver a imagem capturada praticamente em tempo real e já compará-la com a realidade, sem precisar revelar o filme e imprimir a foto em papel.

Uma imagem fotografada depende de vários fatores, em especial da iluminação ambiente. É comum nas câmeras digitais a opção de escolher o tipo de luz ambiente. O software da câmera geralmente possui diferentes calibragens. Há, por exemplo, uma calibragem específica para a luz solar, também conhecida como luz branca real, aquela que é uma mistura de todas cores visíveis do vermelho ao violeta. Há outra calibragem para iluminação com lâmpadas fluorescentes que tendem a esfriar as cores, deixando-as azuladas. E assim por diante.

Em câmeras digitais com mais recursos, existe ainda a calibragem de branco. O fotógrafo mira uma superfície que tem certeza que é branca e faz uma amostra (captura). A amostra de branco pode sair amarelada, azulada, avermelhada… Mas o software da câmera é informado de que aquele padrão de amostra é o branco real. Pelo padrão de branco, o sistema faz uma recalibragem em todas as cores. A partir daí, as cores registradas passam a ser bem mais fiéis à realidade. Sem essa calibragem inicial, há sempre o risco de uma foto não ter muito a ver com aquilo que o fotógrafo estava vendo. Suspeito que a foto do vestido padeça desse problema. A informação é que o vestido, na realidade, tem faixas em azul escuro intercaladas com faixas em marrom escuro, quase preto. Certamente a captura tem problemas de "leitura" de cores.

 

A "leitura" das cores nos nossos olhos

No caso dos nossos olhos, são os cones e bastonetes, células nervosas que ficam na retina, no fundo do globo ocular, que fazem o registro da imagem. Os cones são especializados em detectar as diferentes cores. Já os bastonetes não diferenciam cores mas, capturando mais e mais luz (a rigor mais fótons), conseguem melhorar o brilho nas imagens.

Mas tem um detalhe importantíssimo: não vemos apenas com os olhos! Os olhos, pela córnea e pelo cristalino, as duas lentes convergentes que possuem, formam uma imagem sobre a retina que é registrada pelos cones e bastonetes. Impulsos nervosos levam informações dessa imagem para o cérebro. E é o cérebro quem vai tentar entender o que estamos vendo.

A imagem óptica no fundo do olho é bastante objetiva e de muito boa qualidade. O cérebro (e seu "software") é quem pode mudar tudo. É que o cérebro sempre dá uma de sabidinho e tenta adivinhar as coisas. Mas numa dessas, como todo metido a sabidinho, pode dar suas bolas fora.

Quando vemos uma foto, como a do vestido, se o cérebro "entende" que ela foi feita em baixas condições de iluminação, naturalmente tenta "clareá-la". O cérebro dá brilho na imagem por conta própria. Mas o cérebro também pode "entender" que a imagem foi feita com luz intensa. Nesse caso, vai no sentido oposto e tenta "escurecer" a imagem.

Para quem olha a foto do vestido e acha que ele é azul e preto, é que o cérebro, por conta própria, deu uma escurecida na imagem. Já para quem vê um vestido branco e dourado, o cérebro deu uma clareada na imagem.

Para entender melhor como é isso, montei o infográfico abaixo. Tirei três amostras de algumas regiões do vestido da foto.  Na amostra da esquerda, marcada com um sinal (-), escureci a imagem, tirando brilho através de um software. A amostra do meio é a original, apenas um pedaço da foto, sem tratamento. Na amostra da direita, com um sinal (+), aumentei o brilho da imagem que ficou mais clara.

 

a_cor_do_vestido_explicado

Clique para abrir o infográfico em tamanho maior, o que vai ajudar você a entender o aparente paradoxo
das cores do vestido.

Note que o azul da imagem original, quando clareado, parece branco. Mas, quando escurecido, parece ser azul bem forte. Já o marrom original, escurecido, fica quase preto. Mas clareado lembra bastante um tom de dourado. O que eu fiz nas amostras acima, usando um software instalado no computador, é mais ou menos que o cérebro faz com a informação que recebe da retina via impulsos nervosos. O cérebro usa o próprio "software" dele que, infelizmente, não vem com manual de instruções. E por isso mesmo nos prega peças!

Outra ilusão, e mais uma vez o cérebro nos enganando

A famosa ilusão de óptica abaixo mostra a silhueta de uma garota girando. Algumas pessoas juram que a garota gira no sentido horário. Outras, ao contrário, acreditam que o giro é no sentido anti-horário. Uma mesma pessoa, se desviar o olhar e voltar a olhar para a imagem, pode mudar de ideia!

garota_girando

O que o seu cérebro vê? Giro horário ou anti-horário?

A explicação é simples. Como se trata de uma silhueta, não conseguimos saber qual perna da garota (direita ou esquerda) está na frente . Essa informação é decisiva para sabermos se o giro é horário ou anti-horário. O cérebro, espertinho, sempre querendo saber e entender de tudo, arrisca uma resposta. E se baseia nela daí por diante.

No caso das cores do vestido, ao receber a imagem, na dúvida, o cérebro "chuta" mais brilho ou menos brilho. Logo, a interpretação de diferentes pessoas para a mesma imagem, cada qual com o seu próprio cérebro, pode variar e criar um paradoxo!

Entendeu?

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Sobre o autor

Dulcidio Braz Jr é físico pelo IFGW/Unicamp onde atuou como estudante e pesquisador no DEQ – Departamento de Eletrônica Quântica no final dos anos 80. Mas foi só começar a lecionar física para perceber que seu caminho era o da educação. Atualmente, além de professor, é autor de material didático pelo Sistema Anglo de Ensino / Somos Educação e pela Editora Companhia da Escola. É pioneiro no Brasil no ensino de Relatividade, Quântica e Cosmologia para jovens estudantes do final do ensino médio e início do curso superior. E faz questão de dizer que, aqui no blog, é professor/aluno em tempo integral pois, enquanto ensina, também aprende.

Sobre o blog

"O Física na Veia! nasceu em 2004 para provar que a física não é um “bicho papão”. Muita gente adora física. Só que ainda não sabe disso porque trocou o conteúdo pelo medo. Se começar a entender, vai gostar. E concordar: a Física é pop! Pelo seu trabalho de divulgação científica, especialmente em física e astronomia, sempre tentando deixar assuntos árduos mais leves sem jamais perder o rigor conceitual, o Física na Veia! foi eleito por um júri internacional como o melhor weblog do mundo em língua portuguesa 2009/2010 pelo The BOBs – The Best of Blogs da alemã Deutsche Welle."

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