Física na Veia!

Arquivo : dezembro 2014

Novo cometa pode ser visto no céu do Brasil
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Foto: Dulcidio Braz Jr
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C/2011 W3 Lovejoy fotografado com uma câmera digital (sem telescópio) com resolução de 5 megapixels no final de dezembro de 2011.

Em dezembro de 2011 observei e fotografei o cometa C/2011 W3 Lovejoy, à época recém descoberto. Esse cometa se tornou um verdadeiro presente de Natal para os apaixonados por Astronomia. Apesar de brilho tênue, tinha coma e cauda suficientemente brilhantes para ser visto a olho nu. Confira, logo acima, uma das minhas fotos desse astro inesquecível.

O C/2011 W3 Lovejoy era o terceiro cometa então descoberto pelo astrônomo amador australiano Terry Lovejoy que em 2013 veio a descobrir um quarto cometa que, infelizmente, para a maioria das pessoas, só podia ser observado por instrumentos.

realscience.us
TerryLovejoy

Terry Lovejoy, um verdadeiro caçador de cometas, e seu equipamento.

Terry, apesar de amador, vem se consolidando como um verdadeiro caçador de cometas. Em 17 de agosto de 2014 (acreditem!) encontrou mais um novo cometa. O quinto cometa da sua invejável “coleção” foi nomeado pela UAI – União Astronômica Internacional como C/2014 Q2 Lovejoy.

O C/2014 Q2 Lovejoy nesse momento aproxima-se do Sol. E vai ter seu periélio (máxima aproximação com o Sol) em 30 de janeiro de 2015.  Em 5 de janeiro terá sua máxima aproximação com a Terra.

O melhor dessa história é que o cometa vem evoluindo de forma surpreendente. Ao final de outubro ele estava uma magnitude mais brilhante do que as medidas iniciais, ainda visível somente por instrumentos. Em meados de novembro ele havia ganho mais duas magnitudes.

Sabemos que os cometas, na medida em que se aproximam do Sol, recebem cada vez mais energia térmica. Com o calor solar vão perdendo parte da matéria congelada do núcleo por sublimação. Aos poucos, a matéria sublimada, na forma gasosa, vai formando uma nuvem esférica ao redor do núcleo sólido. Essa nuvem é conhecida como coma (ou cabeleira). Quanto maior a coma, maior e mais brilhante se torna o cometa.

Mas ainda tem a cauda, outro detalhe que torna os cometas astros bem diferentes. A cauda surge porque o Sol emana um fluxo constante de partículas que constituem o que os astrônomos chamam de vento solar. O vento solar literalmente sopra a coma, esticando-a, para formar a longa cauda do cometa. Coma e  cauda transformam o astro pequeno e apagado num gigante brilhante e, portanto, cada vez mais visível.

Nesse exato momento o C/2014 Q2 Lovejoy  encontra-se no limite da visão a olho nu, sendo melhor visto com o auxílio de instrumentos (um pequeno binóculo ou telescópio). Mas há uma probabilidade de que que ele possa evoluir mais e talvez possa ser visto a olho nu, pelo menos de locais bem escuros, afastados das luzes da cidade.

Ficou curioso? Gostaria de tentar suas próprias observações mas não sabe como encontrar o cometa? Veja a seguir minhas dicas para facilitar essa tarefa.

 

Dicas de observação do C/2014 Q2 Lovejoy

O novo cometa está visível para o hemisfério sul assim que o dia escurece. E fica visível por toda a noite, até o próximo nascer do Sol.

No começo da noite ele é visto perto do horizonte leste (a rigor na direção sudeste, ou seja, um pouco mais à direita do leste). Vale lembrar que o lado leste é oposto ao lado em que o Sol se põe.

Conforme o tempo avança, o cometa (bem como qualquer outro astro) vai subindo no céu por efeito da rotação da Terra. Por volta da meia noite o cometa já estará bem alto no céu. No meio da madrugada o cometa terá passado pelo ponto mais alto e já estará descendo, caminhando para o horizonte oeste.

Perto do Sol nascer podemos observar o cometa no lado oeste (a rigor na direção sudoeste, um pouco mais à esquerda do oeste). Não se esqueça de que o Sol estará nascendo no lado oposto.

Para quem não tem muita intimidade com o céu, há duas excelentes referências para encontrar o cometa:

1) As Três Marias, três estrelas bastante conhecidas, brilhantes  e alinhadas que formam o cinturão de Órion.

2) A estrela Sírius, a mais brilhante no nosso céu.

Outras três estrelas também são boas referências para montar o cenário astronômico onde se encontra o cometa:

3) Rigel;

4)  Betelgeuse;

5) Canopus.

 

1) Observações no começo da noite

Olhando para o lado leste, assim que o céu começar a escurecer, por volta de 20h30min, você começará a reconhecer o cenário onde se encontra o Lovejoy. As duas referências mais óbvias são as Três Marias (1), três estrelas alinhadas que se destacam no cinturão de Órion, e a estrela Sírius (2), muito mais brilhante que todas as outras visíveis no céu. Ainda na mesma constelação de Órion você vai ver Rigel (3) e Betelgeuse (4). Se estiver num local bem escuro, Betelgeuse (4), uma supergigante vermelha, será um ponto bem brilhante e avermelhado. Quase na mesma altura de Rigel  (3),  mais para a direita, não será difícil ver a estrela Canopus (5), também bastante brilhante. A imagem abaixo, simulação para 20h30min do dia 26, mostra as cinco principais referências para encontrar o cometa.

 

Lovejoy_2014_Q2_26dez2014_E_01

Principais referências para encontrar o cenário onde está o cometa Lovejoy. Note que os astros estão
logo acima do horizonte e ainda há luz do Sol (por volta das 20h30min). Clique na imagem para abrir
versão maior.

O cometa está entre Rigel (3) e Canopus (5). Para facilitar, imagine uma linha ligando as duas estrelas (3) e (5). Na imagem abaixo, que corresponde à simulação para 21h30min,  desenhei uma linha tracejada ligando (3) e (5) para auxiliar a sua imaginação. O cometa, representado abaixo por uma bolinha verde, está ligeiramente acima dessa linha imaginária, mais ou menos no ponto médio entre (3) e (5).

Lovejoy_2014_Q2_26dez2014_E_02

Use a imaginação. Pense numa linha que ligando Rigel (3) a Canopus (5). O cometa Lovejoy está quase
no ponto médio dessa linha, mas um pouco para cima. Clique na imagem para abrir versão maior.

 

Mas calma. É bem provável que você encontre o cenário acima mas não veja o cometa a olho nu. A bolinha verde que usei não retrata a realidade. O cometa mais parece uma nuvenzinha verde e difusa.

Com um telescópio, e técnica mais apurada de astrofotografia, é possível conseguir um bom registro do cometa, como a belíssima imagem abaixo.

Alan Frias (via CiencTec)
Lovejoy2014Q2_telescopio

Imagem de Alan Frias obtida pela sobreposição de 10 imagens de longa exposição (120 s cada) com telescópio refletor de 114 mm de abertura.

Quanto melhor o equipamento, melhor a imagem. Veja registro fotográfico feito em mosaico por Gerald Rhemann em 21 de dezembro de 2014 em Farm Tivoli, Namibia, África do Sul. É de cair o queixo! Dá para ver nitidamente o cometa verde e sua cauda azul de íons!

Com um binóculo você verá algo mais próximo do que mostra a fotografia abaixo.

Hildo Nascimento (via CiencTec)
Lovejoy2014Q2_binoculo

Fotografia de longa exposição (5 s), sem telescópio, apenas com câmera digital. Registro de Hildo Nascimento.

Hoje, 26 de dezembro, é ainda muito pouco provável que você consiga ver o cometa a olho nu. Um binóculo, mesmo que amador e pequeno, vai ajudar bastante na observação do astro. Se o cometa continuar evoluindo, talvez nos próximos dias seja possível observá-lo sem o auxílio de instrumentos.

Você pode tentar observar o cometa durante toda a noite. Mas, se preferir, pode acordar pouco antes do Sol nascer. Veja a seguir dicas de observações no final da madrugada.

 

2) Observações no final da noite

Agora, olhando para o lado oeste, pouco antes do Sol nascer, você verá a mesma cena acima, só que invertida. O que estava para cima vem para baixo e vice-versa. O que estava para a direita vem para a esquerda e vice-versa. É que o cometa (e todos os outros astros) durante a noite, por conta da rotação da Terra, ascenderam no céu e agora estão descendo, do lado oposto.

A imagem abaixo mostra o mesmo cenário onde se encontra o cometa, por volta das 4h30min, só que agora no horizonte oeste.

Lovejoy_2014_Q2_26dez2014_O_01

O cenário onde se encontra o Lovejoy, só que agora pouco antes do Sol nascer (4h30min), no horizonte
oeste.

 

Dica de software

Todas as imagens simulações deste post foram feitas com o software Stellarium para latitude e longitude de São João da Boa Vista, interior de São Paulo,  minha cidade. As simulações valem com boa aproximação para toda a região sudeste do Brasil. Se você estiver em outras regiões do país, não tem problema. As dicas de referências visuais  são as mesmas. Apenas os horários de observação serão ligeiramente diferentes.

Mas fica a dica de software (aberto e gratuito): baixe o Stellarium e faça você mesmo as suas próprias simulações astronômicas! Diversão garantida!

As minhas/suas experiências com o cometa

Eu ainda não consegui ver o cometa, nem com binóculo. Mas sigo tentando. O Céu nublado não tem colaborado muito…

Hoje o céu limpou. Vou tentar. Se eu conseguir algum registro fotográfico, posto por aqui.

Deixe seus comentários nos contando se conseguiu observar o cometa! Combinado?


Para ver

  • Galeria de imagens do c/2014 Q2 Lovejoy feitas por brasileiros (do blog CiencTec do meu amigo Sérgio Sacani, de onde regirei duas imagens para o post)

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Hoje teve explosão solar das fortes!
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

SOHO
SOHO CME

Registro da grande explosão feita pelo coronógrafo do SOHO. O Sol, que corresponde à circunferência branca central, está propositalmente obstruído por um anteparo (disco azul escuro) que permite a observação da coroa solar.

 

Nas primeiras horas de hoje, sábado, 20 de dezembro, uma explosão solar considerada bastante intensa chamou a atenção dos cientistas que se dedicam a observar e estudar a nossa estrela. Junto com a intensa radiação eletromagnética, houve ejeção de massa coronal para o espaço.

Medidas da intensidade da radiação permitiram classificar a explosão como X1.8 (confira detalhes dessa escala noutro post).

A luz viaja a quase 300.000 km/s no vácuo e o Sol encontra-se a aproximadamente 150 milhões de km da Terra. Logo, para vir do Sol até nós, a luz demora Δt que pode ser facilmente obtido por

Δt = ΔS/v = 150 000 000 km / 300 000 k/s = 500 s

Como cada minuto tem 60 s, se tivéssemos 480 s teríamos exatos 8 minutos. Logo, 500 s corresponde a 8 minutos e ainda sobram 20 s.

Concluímos, pelos cálculos acima, que o registro da explosão solar feito aqui na Terra aconteceu 8 minutos e 20 segundos depois do fenômeno ocorrer lá no Sol.

A intensa radiação  na faixa do ultravioleta e dos raios X causou ionização nas camadas mais altas da atmosfera da Terra, provocando blackout nas transmissões de rádio na faixa em torno de 10 MHz por mais de duas horas. A atenuação das ondas de rádio foi bem observada principalmente na Austrália e no Pacífico Sul.

Nos próximos dias partículas ejetadas do Sol, que viajam com velocidade bem menor que a da luz no vácuo, devem chegar à Terra provocando o belíssimo fenômeno das auroras (saiba mais sobre auroras nesse outro post)

Explosões solares intensas, da classe X, podem danificar satélites em órbita ao redor da Terra e até mesmo equipamentos eletrônicos na superfície do planeta. Não há até o momento nenhum relato desse tipo de incidente.

Clique aqui e veja vídeo mostrando a intensa explosão feito pelo SOHO – Solar and Heliospheric Observatory (NASA). A foto acima é apenas um frame desse vídeo. Vale observar que o pontinho brilhante que aparece à esquerda do Sol e ligeiramente para baixo é o planeta Mercúrio.

A explosão solar teve origem na região ativa AR2242. Confira aqui a AR2242 bem como outras regiões ativas solares que são grandes agrupamentos de manchas solares em registro do SDO – Solar Dynamics Observatory (NASA).


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Volta ao mundo de carro
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Bravo_40000km

 

Não faz muito tempo que meu carro completou 40000 km rodados. A foto acima, feita às 6h38min  de uma  manhã fria (temperatura ambiente de 11 ºC), enquanto eu subia a serra para lecionar em Poços de Caldas/MG, comprova a marca.

Antes que você estranhe e me pergunte por que razão fotografei o hodômetro do meu carro marcando exatamente 40000 km, explico.

A Terra, nosso planeta, é praticamente uma esfera com ligeiro achatamento polar e raio equatorial de aproximadamente 6371 km.

O comprimento de uma circunferência qualquer, inclusive a circunferência do Equador, pode ser calculado por

 

L_igual_2piR

onde r é o raio da circunferência e π o conhecido número pi.

No caso da Terra (veja imagem abaixo), r = 6371 km (valor aproximado).  E o número pi, bastante manjado, vale π =  3,14 (valor também aproximado).

Terra_raio

Faça as contas comigo: L = 2 x 3,14 x 6361 = 40000 km (aproximadamente).

A foto acima, mostrando o hodômetro do meu carro, é simbólica. É como se naquele momento em que meu carro completava 40000 km rodados eu estivesse dando uma volta completa no mundo! E de carro? Entendeu?

Na prática não tem como realizar essa façanha porque o Equador passa por regiões de terra firme mas também por áreas oceânicas onde um carro não pode trafegar. Mas é simbólico, concorda?

Eu sei que você vai dizer que isso é coisa de físico maluco? Mas que nada! Para fazer a foto, parei no acostamento, liguei o pisca alerta, e só então fiz o registro da imagem com o celular, com toda a segurança. Não sou tão maluco quanto possa parecer! Mas que fique claro: sou físico!


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