Física na Veia!

Uma tragédia, uma lição
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

A Terra vista do espaço ("Blue Marble 2012")

A Terra vista do espaço (''Blue Marble 2012″) – Fonte: NASA

 

A Terra, vista do espaço, não tem fronteiras. É preciso chegar bem perto da superfície do planeta para enxergar as divisões artificialmente criadas pelos seres 'mais racionais' para separar iguais em grupos supostamente diferentes e de importância relativizada.

De longe, segundo Carl Sagan, nosso planeta é apenas um pálido ponto azul. Não há como discordar. E logo refletirmos com profundidade sobre um fato assustadoramente crítico: é desse grão de poeira pálido e azulado, um quase nada diante da imensidão do Universo, que tiramos tudo o que precisamos para nos mantermos vivos. Somos todos dependentes desse quase nada que, para nós, é mais do que tudo. E isso, exatamente isso, nos faz ainda mais iguais e interdependentes.

Enquanto não nos enxergarmos tão iguais e pertencentes a uma única raça, o mundo continuará cheio de injustiças e tristezas provocadas pelo próprio homem. Enquanto não entendermos que a Terra é a nossa nave nessa viagem cósmica, estaremos, a cada segundo, caminhando para a nossa própria autodestruição.

Foi preciso acontecer uma tragédia chocante com o avião que levava o time da Chapecoense e jornalistas brasileiros para o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana em Medellín, na Colômbia, para levarmos uma lição e tanto. Falo por mim. E acho que por muita gente. Descobri(mos) um povo carinhoso e fraterno que nos mostrou exemplar desprendimento. Refiro-me aos colombianos.

De cara, o time do Atlético de Medellín, adversário da Chapecoense, abriu mão do título internacional, mostrando que futebol, diante da vida e dos verdadeiros valores humanos, não é nada. E o povo colombiano, relevando a rivalidade futebolística que às vezes, de forma insana, até mata, no dia e horário do jogo que não mais podia acontecer, lotou o estádio trocando o espetáculo da batalha esportiva por uma cerimônia para celebrar a paz entre os povos e os verdadeiros valores humanos. Foi uma sacudida no mundo. Não foi? A Terra tremeu, delicadamente.

Nós, os seres 'racionais' do planeta, muitas vezes precisamos de duras lições para aprendermos as coisas mais fáceis, simples e óbvias. ''Sapiens'', soa-me, quase sempre, muito mais como arrogância do que adjetivo legítimo. Mas talvez isso esteja mudando. Os colombianos acenaram com delicadeza para o mundo todo nos mostrando essa incrível e necessária possibilidade de mudança essencial rumo à verdadeira sabedoria que está ancorada no amor universal.

Que fique a lição! Dura. Triste. Contundente. Mas aprendida. Uma luz apontando para um novo e melhor caminho. Uma semente que pode brotar e fazer florescer uma nova era na qual prevaleça a verdadeira fraternidade mundial que, ancorada no verdadeiro amor, saiba tolerar as desprezíveis diferenças externas em favor do fato de que, essencialmente, por dentro de nossas cascas, somos absolutamente todos iguais.


''Blue Marble'' (2012) é uma incrível imagem da Terra em altíssima resolução feita pelo satélite Suomi NPP. Clique aqui para abrí-la noutra janela em 8000 pixels X 8000 pixels. Use e abuse do zoom para ver os detalhes!

 

 


Passagem da ISS sobre o Brasil
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

ISS [Fonte: NASA]

ISS [Fonte: NASA]

Hoje, logo de manhã, recebi e-mail do serviço SpotTheStation da NASA avisando que a ISS – International  Space Station iria passar sobre a minha cidade (São João da Boa Vista, SP) e região. Na verdade ela cruzou uma boa parte do território brasileiro.

A mensagem dizia: ''Time: Sat Nov 19 7:51 PM, Visible: 5 min, Max Height: 69°, Appears: 24° above SSW, Disappears: 10° above NE''.

Traduzindo: hoje, sábado, 19 de novembro, às 7:51 PM (ou 19:51, horário oficial de verão de Brasília), a estação  espacial ficará visível por 5 minutos na sua região e atingirá altura máxima de 69°, aparecendo no céu perto da coordenada SSW, numa altitude aparente de 24°, e desaparecendo próximo da coordenada NE, numa altitude aparente de 10°.

Eu havia acabado de chegar de Campinas onde participei da XXXVII Oficina de Física do IFGW/Unicamp e, apesar de cansado, não poderia perder esse espetáculo. Para ajudar, o céu estava muito limpo.

Montei minha câmera no tripé e, na hora exata, comecei a observar o céu. Demorei um pouco para começar a ver a ISS. É que o céu, a SSW, com o Sol poente, estava ainda bastante claro. Mas logo avistei o pontinho luminoso que já cruzava o céu com velocidade aparente bastante grande¹.

Depois que a ISS passou para o outro lado do céu, um pouco mais escuro, o contraste ficou melhor. E, nessa posição, ela estava refletindo a luz solar bem para onde eu estava. Aí consegui fazer um vídeo. E dele retirei alguns frames. Confira as imagens abaixo. Destaquei a ISS (pontinho luminoso) com um círculo para facilitar a visualização.

ISS_19nov2016_01

ISS_19nov2016_02

ISS_19nov2016_04

 

Em breve, com mais tempo, edito o vídeo é posto por aqui.

Se você também quer entrar nessa divertida brincadeira de observar a ISS, dou todas as dicas nesse post onde também passo as coordenadas para você se inscrever em serviço gratuito da NASA que avisa a cada passagem da estação espacial sobre a sua cidade/região. Vale a pena. É sempre muito divertido, especialmente você se lembrar que dentro daquele mero pontinho viajam alguns tripulantes!


 1 – A ISS orbita a Terra a aproximadamente 400 km de altitude e dá uma volta em nosso planeta a cada 90 minutos aproximadamente. Isso equivale a dizer que ela tem velocidade real de pouco mais de 7 km/s e por isso é vista como um pontinho luminoso que rasga o céu com velocidade aparente bastante grande. Vale lembrar que a ISS reflete a luz solar. Quando ela começa a ser vista significa que ela mergulhou no cone de luz solar. Da mesma forma, quando desaparece para um observador fixo na Terra, é porque ela entrou na sombra do nosso planeta.

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* Post na plataforma antiga do blog

Teste o tamanho da Lua com o dedo indicador
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Teste_do_Dedo_inf

Se você esticar o braço e levantar o dedo indicador, para o seu olho, a largura aparente do dedo terá praticamente 1,0 grau. Varia de pessoa para pessoa, claro. Mas o valor gira em torno de 1,0 grau.

A Lua Cheia tem diâmetro angular aparente médio de 0,5 grau.

Logo, com apenas um dedo indicador você deve conseguir cobrir a Lua Cheia com folga. A rigor, conseguiria cobrir duas Luas Cheias encostadas lado a lado.

Não acredita? Experimente! Faça você mesmo!

Aproveite que hoje a Lua Cheia ainda é (praticamente) uma Superlua. Ontem ela estava quase 100% iluminada. Hoje está 96,5%. Ontem ela estava a 356000 km da Terra e hoje está a 358000 km. De ontem para hoje, no ''olhômetro'', não há diferença alguma!

Sempre que você estiver observando a Lua e ela parecer estar enorme, faça o teste do dedo indicador. É infalível! Não existe Lua Cheia enorme, gigante, nem mesmo durante uma Superlua. Se a Lua parece enorme, tenha certeza: é ilusão de Óptica. E o culpado é o seu cérebro. Veja o post anterior sobre o fenômeno da Superlua onde explico, dentre outras coisas, essa ilusão bastante comum.

Depois que você mesmo fizer o teste, ensine seus amigos a fazerem também. O teste é simples. Mas de resultado surpreende.

Deixe seu cometário aqui no blog.

Boas observações!

Vou postar abaixo algumas fotos que acabei de fazer da (quase) Superlua, 24 h depois.

 

Lua cheia (quase Superlua) em 15/novembro/2016

Lua_Cheia_15nov2016_01

Lua Cheia nascendo sobre as luzes do meu bairro

 

Lua_Cheia_15nov2016_02

Lua Cheia, ao nascer, agora em close


 

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O que uma Superlua tem de “super”?
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Super_Lua_29ago2015_02

Registro da Superlua de 29 de agosto de 2015 nascendo por trás da serra em São João da Boa Vista,
São Paulo, Brasil.

 

Recebi muitas mensagens perguntando sobre a tão falada Superlua recorde de novembro de 2016. Muita gente querendo saber se o fenômeno era ontem (dia 13) ou hoje (dia 14). Mas a maior dúvida dentre todas: a Lua Cheia vai ficar realmente enorme no céu?

Para acabar de vez com as dúvidas, resolvi escrever este post explicando (mais uma vez) o que é o fenômeno da Superlua.

Mas dessa vez vou mais longe. A partir da Geometria básica e de algumas continhas simples, pretendo quantificar tamanho e brilho aparentes da Lua Cheia para concluirmos juntos se o fenômeno pode ser mesmo ''Super''!

 

A distância (variável) Terra-Lua

Para entender o fenômeno da Superlua, é preciso antes de tudo se convencer de que a distância Terra-Lua varia. E isso afeta o tamanho aparente da Lua vista daqui da Terra.

Essa variação de distância Terra-Lua deve-se ao fato de que a órbita da Lua ao redor da Terra não é perfeitamente circular mas oval (a rigor, elíptica). A ilustração a seguir nos dá uma ideia de como é a órbita do nosso satélite (Lua) ao redor do nosso planeta (Terra) bem como das distâncias relevantes. Exagerei um pouco, desenhando propositalmente a órbita da Lua bem mais oval do que ela de fato é. E os astros (Terra e Lua) também estão fora de escala em relação ao tamanho da elipse. O exagero proposital é apenas para reforçar aspectos relevantes.

SuperLua_quantificando_01

Órbita da Lua ao redor da Terra, fora de escala. Note que distância Terra-Lua varia.

 

Você percebeu que a Terra não está no centro da órbita da Lua mas num dos dois focos da elipse? Assim, enquanto orbita a Terra, a cada 29,5 dias aproximadamente, a Lua pode passar mais perto do nosso planeta (perigeu) ou mais longe dele (apogeu).

A distância média Terra-Lua, parâmetro físico também chamado de semi-eixo maior (a) da órbita elíptica, tem valor próximo de a = 384000 km.

É possível demonstrar que a distância (d) entre um corpo que orbita outro em trajetória elíptica depende da excentricidade orbital (e) e tem valor que varia entre o mínimo d = (1 – e).a e o máximo d = (1 + e).a. Se quiser conferir a demonstração, veja esse post (ainda na plataforma antiga do blog).

SuperLua_quantificando_02

A excentricidade da órbita terrestre da Lua tem valor aproximado e = 0,0549. Se fosse zero (redondo), a órbita seria circular. Note que é a excentricidade é um pouco maior do que zero, o que ratifica a ideia de que a órbita, embora seja elíptica, não é tão oval.

Agora já temos como calcular os valores máximo (no apogeu) e mínimo (no perigeu) da distância Terra-Lua e que já foram revelados na ilustração logo acima. Quer saber de onde eles vieram? Confira as continhas abaixo:

  • Distância máxima Terra-Lua (apogeu)
    SuperLua_quantificando_03_
  • Distância mínima Terra-Lua (perigeu)
    SuperLua_quantificando_04a

Mas há mais um detalhe importante e que faz diferença. Quando a Lua está bem alta no céu, ou como costumamos dizer a Lua está a pino, ela fica ainda mais perto do observador. Isso porque o observador está na superfície do planeta mas as distâncias que calculamos acima são medidas entre o centro da Terra e o centro da Lua. Dessa forma, quando a Lua está no perigeu e fica a pino, ela fica um raio terrestre mais perto do observador (O). Não está conseguindo visualizar? Veja a figura abaixo que fiz para ajudá-lo nessa tarefa um tanto quanto abstrata.

SuperLua_quantificando_05

Lua a pino, um raio (R) terrestre mais perto do observador O.

 

Logo, a menor distância entre o observador (O) e a Lua não é de apenas 363000 km. Temos que descontar o raio da Terra que é de aproximadamente 6400 km.

A distância mínima (observacional) da Lua no perigeu é

  • Distância mínima observacional Terra-Lua (perigeu)
    SuperLua_quantificando_04b

Comparando os valores acima, fica fácil entender que a Lua, vista da Terra, pode estar mais longe, a cerca de 405000 km (apogeu), ou mais perto, em torno de 356000 km (perigeu, e se observada a pino).

SuperLua_quantificando_06

Note que a diferença de distâncias Terra-Lua 49000 km = 405000 – 356000 é um valor não desprezível em relação à distância média Terra-Lua próxima de 384000 km. E é exatamente isso que faz varia o tamanho aparente da Lua para um observador fixo na Terra.

Estando mais perto, a Lua será percebida pelo observador em tamanho aparente maior. Ao contrário, ficando mais longe, parecerá menor. É o que ilustra a imagem abaixo onde percebemos que o tamanho (ou diâmetro) real da Lua é constante mas seu tamanho aparente, para o observador terrestre, muda de valor.

SuperLua_quantificando_07

Na prática, é o ângulo de abertura θ do cone de luz que sai da Lua Cheia e atinge os olhos do observador é que dá a sensação de tamanho (confira na figura acima). Quanto maior θ, maior a sensação de tamanho (ou tamanho aparente) e vice-versa. Assim, para θp (perigeu) > θa (apogeu), o tamanho aparente da Lua Cheia é maior no perigeu do que no apogeu.

O que é Superlua?

Quando coincide da Lua Cheia (Lua com o disco totalmente iluminado e voltado para a Terra) ocorrer próxima a passagem da Lua pelo perigeu, na faixa que indiquei na figura lá em cima entre P' e P'', temos uma Lua Cheia mais próxima da Terra e, portanto, uma Lua Cheia com tamanho aparente maior.

É isso que recentemente vem sendo chamado de Superlua e gerado uma certa confusão por conta do termo Super.

SuperLua_quantificando_12

A Superlua de novembro de 2016 foi ontem (13) ou será hoje (14)?

 

A Lua Cheia, segundo este site, aconteceu hoje (14) por volta de meio dia (horário de Brasília). E a passagem pelo perigeu foi aproximadamente duas horas antes. Lua Cheia no perigeu, com poucos horas de diferença, é Superlua!

Ontem, dia 13, quem teve céu limpo aqui no Brasil, já pode observar à noite a Lua (praticamente) Cheia, ou seja, com o disco quase totalmente iluminado. E poucas horas antes da passagem pelo perigeu. Tecnicamente, já dava para chamar essa Lua Cheia de Superlua.

Hoje, dia 14, à noite, teremos aqui no Brasil outra Lua (praticamente) Cheia, com quase todo o disco iluminado. E somente poucas horas depois de sua passagem pelo perigeu. Logo, tecnicamente, ainda podemos dizer que se trata de uma Superlua.

Sobre a aproximação recorde da Lua, vale ressaltar que a última vez em que a Lua Cheia e a passagem pelo perigeu foram tão próximas, com diferença de apenas 2h, foi em 26 de janeiro de 1948, há 68 anos. A Superlua de ontem/hoje é, portanto, um recorde! Mas, na prática, essa pequena diferença de horas é imperceptível e todas as outras Superluas que tivemos nesse períodode 68 anos foram, na prática, do ponto de vista observacional, indistinguíveis.

Mas será que uma Superlua é mesmo ''Super''? Até aqui só expliquei o fenômeno da aproximação/afastamento da Lua em relação à Terra. Mas, para ratificar ou não o ''Super'', temos que tentar quantificar quão maior ou menor a Lua Cheia pode nos parecer entre o perigeu e o apogeu. E também tentar estimar como a distância Terra-Lua afeta o brilho aparente (ou luar) do nosso satélite para um observador fixo na Terra. Assim poderemos entender de vez se a Superlua faz jus ao nome.

Vamos em frente…

 

Estimativa da variação no tamanho aparente da Lua Cheia

Como dito acima, uma boa maneira de estimar o tamanho aparente de um astro (no nosso caso da Lua) é calcular o valor do ângulo θ de abertura do cone de luz que chega aos olhos do observador.

Usarei o triângulo retângulo laranja e de borda vermelha destacado na imagem abaixo e para o qual um dos catetos equivale à distância observador-Lua e o outro ao raio da Lua que mede aproximadamente R = 1740 km.

SuperLua_quantificando_08

 

Pela razão entre os catetos (oposto e adjacente) no triângulo retângulo podemos facilmente obter a tangente do ângulo θ/2 e, a partir daí, numa calculadora científica, descobrir o valor de θ. Basta usar a definição de tangente (cateto oposto pela hipotenusa) dada na expressão abaixo:

SuperLua_quantificando_09

Vamos aos cálculos:

  • Tamanho angular aparente da Lua no perigeu:
    SuperLua_quantificando_10a
  • Tamanho angular aparente da Lua no apogeu:
    SuperLua_quantificando_10b

Pelos cálculos acima, descobrimos que o tamanho angular aparente da Lua varia entre 0,49 graus (apogeu) e 0,56 graus (perigeu). Do ponto de vista percentual, isso equivale a uma variação de:

SuperLua_quantificando_11

Note que o tamanho angular aparente da Lua Cheia no perigeu supera o tamanho aparente no apogeu em 14/100, ou seja, é 14% maior.

Concluímos que entre a menor Lua Cheia (no apogeu) e a maior Lua Cheia (no perigeu, chamada Superlua), a diferença de tamanho é da ordem de 14%, algo imperceptível a olho nu.

 SuperLua_quantificando_13

Só 14%! Do ponto de vista do tamanho aparente, uma Superlua não tem nada de Super! Concorda? 

Estimativa da variação no brilho aparente da Lua Cheia

A intensidade (I) da radiação emitida por uma fonte (F) de tamanho desprezível em geral decresce com o inverso do quadrado da distância (r) à fonte.

Como a energia se espalha de maneira isotrópica ao redor da fonte (F), é como se a fonte estivesse no centro de esferas imaginárias que crescem de tamanho (volume) na medida em que aumenta a distância (r) à fonte. A figura a seguir ilustra essa ideia. Note que, se um observador está a uma distância r da fonte F, é como se ele pertencesse à superfície de uma esfera imaginária de raio r. Se o observador se afastar da fonte e ficar a uma distância 2r dela, é como se agora pertencesse à superfície de outra esfera de raio 2r, de maior volume e também maior área superficial.

SuperLua_quantificando_14

''Cascas esféricas'' (aqui vistas de perfil) e centradas na fonte F.

Dessa forma, na medida em que o observador se afasta da fonte (F), a energia por ela emanada por unidade de tempo vai sendo ''diluída'' numa área (A) cada vez maior e que numa superfície esférica mede A = 4πr² onde onde π = 3,14 é o número pi e r é o raio da esfera. Lembre-se de que é como se observador estivesse numa casca esférica centrada na fonte.

A imagem abaixo também nos ajuda a entender melhor essa ideia dessa ''diluição'' de energia. Note que, se dobrarmos r, a área da superfície esférica aumenta quatro vezes (2²). Se triplicarmos r, a área fica multiplicada por 9 (3²). E assim por diante.

SuperLua_quantificando_15

A fonte F emite luz que se espalha ao seu redor e vai sendo ''diluída'' numa área cada vez maior. [Adaptado de: http://inversodoquadradocomarduino.blogspot.com.br/]

 

Se considerarmos que a fonte F é a Lua, de tamanho desprezível em relação à sua distância média à Terra, na medida em que o observador dela se afasta, ou seja, na medida em que r cresce, a quantidade de energia que ele recebe vinda do nosso satélite fica cada vez menor. Para a luz visível, essa energia representa a intensidade aparente do luar. E nos servirá para estimarmos a diferença no brilho da Lua Cheia quando da sua passagem pelo perigeu e pelo apogeu.

Admitindo que a Lua Cheia emite uma quantidade constante de luz¹ (ou energia luminosa ΔE) por unidade de tempo (Δt), podemos dizer que a Lua Cheia tem uma potência (P = ΔE/Δt) constante. Assim, a intensidade (I) da luz recebida por um observador a uma distância (r) da fonte (Lua) pode ser dada pela razão P/A (potência/área), expressão conhecida como ''Lei do inverso do quadrado da distância'':

SuperLua_quantificando_16

Note que, sendo P uma constante, então P/4π também é constante. A rigor, se chamarmos essa constante de K, podemos reescrever a Lei acima como I = K/r².

Vamos calcular a intensidade I que chega no observador fixo na Terra para a Lua Cheia a pino no perigeu (Ip) e no apogeu (Ia):

  • Intensidade da luz da Lua Cheia (a pino) no perigeu:
    SuperLua_quantificando_17a
  • Intensidade da luz da Lua Cheia no apogeu:
    SuperLua_quantificando_17b

Podemos comparar as intensidade acima do ponto de vista percentual. Basta fazer a razão entre os valores obtidos. Veja:

SuperLua_quantificando_17c

Concluímos que a intensidade da luz da Lua Cheia (a pino) no perigeu supera em 30/100, ou seja, em 30% a intensidade da luz da Lua Cheia no apogeu. Em outras palavras, por comparação, temos um ganho de 30% na intensidade do luar da Lua Cheia no perigeu (Superlua) em comparação com o luar mais fraco da Lua Cheia no apogeu.

Embora seja muito difícil quantificar essa diferença de 30% no brilho do luar apenas no ''olhômetro'', ou seja, sem instrumentos de medida, dá para dizer que uma Superlua, a olho nu, é uma Lua Cheia de luar ''turbinado''! 

SuperLua_quantificando_18

Ilusão de Óptica

Quando a Lua Cheia está a pino, como já comentei acima, ela fica mais perto do observador de uma quantidade equivalente a um raio terrestre. Paradoxalmente, nessa posição mai próxima, a Lua Cheia sempre nos parece ser menor. Você já deve ter percebido que ela parece ser muito maior quando nasce. Certo? Você já se perguntou qual é a razão disso?

Tal efeito se deve à ilusão de óptica e o culpado disso é nosso cérebro. Quando a Lua Cheia nasce, por trás do horizonte, há sempre outros objetos na paisagem para compararmos com ela. E aí o nosso cérebro acaba fazendo interpretações equivocadas.

Clique aqui (ou na imagem abaixo) para abrir um vídeo bem legal para ilustrar essa ideia de ilusão². Nele as pessoas parecem estar diante de uma Lua Cheia gigantesca! Seria fantástico se fosse verdade. Mas não é. Quem estava filmando via as pessoas, ao longe, e em comparação com o disco lunar, bem menores. Veja a seguir, depois de ver o vídeo, a explicação para a ilusão.

SuperLua_quantificando_19

Frame do vídeo que mostra uma Lua ''descomunal''. Mas é ilusão.

 

Como já vimos mais acima, o tamanho angular aparente da Lua Cheia tem a ver com o ângulo θ de abertura do cone de luz que vem do nosso satélite e chega aos olhos observador. Certo?

Imagine um observador que olha para a Lua Cheia, ainda baixa no horizonte, e vê outra pessoa que se interpõe entre ele (observador) e a Lua Cheia. Considere que inicialmente a pessoa está perto do observador (posição A na ilustração abaixo). Logo, para o observador, a silhueta escura da pessoa contra a intensa luz da Lua Cheia parece ser enorme. A Lua Cheia, com o mesmo tamanho angular aparente (cerca de 0,5 grau), some por trás da pessoa que, por estar perto do observador, parece grande. Mas quando a pessoa vai caminhando e se afastando do observador, o cenário muda. Na posição B a silhueta da pessoa de costas está menor para o observador. Logo, para o observador a pessoa (mais distante) ficou menor. Mas a Lua Cheia, no mesmo lugar, à mesma distância, continua com o mesmo tamanho angular aparente que corresponde à abertura θ do cone de luz, de 0,5 grau aproximadamente. Agora, em comparação com a pessoa, a Lua Cheia parece ter crescido. A ilustração abaixo nos ajuda a entender a ideia.

SuperLua_quantificando_20

O que vai acontecendo na medida em que a pessoa se afasta ainda mais do observador, caminhando para as outras posições C, D e E? Note que na posição C a silhueta da pessoa tem o mesmo tamanho da abertura θ do cone de luz da Lua Cheia. Para o observador, a pessoa parece ainda menor. Mas, em comparação com a Lua Cheia, o cérebro ''acredita'' que a Lua Cheia cresceu e agora tem diâmetro aparente equivalente à altura de uma pessoa adulta. Dá para entender a ilusão?

Na posição D a pessoa parece ter ficado ainda menor mas, por comparação, é a Lua Cheia que se agiganta diante dos olhos do observador e agora parece ser bem maior. Em E o efeito se potencializa. Na medida em que a pessoa se afasta cada vez mais do observador, o tamanho aparente da Lua Cheia será sempre o mesmo (porque a distância observador-Lua é fixa) mas, por comparação, nosso cérebro vai interpreta que a Lua Cheia cresceu. E criar cada vez mais o efeito de Lua Cheia gigante, exatamente como visto no vídeo sugerido acima. Deu para entender?

É por isso que, quando vemos a Lua nascendo, bem baixa, ainda próxima ao horizonte, sempre temos a impressão de que a Lua está enorme. A mesma ilusão se repete com o Sol próximo ao horizonte, nascendo ou se pondo.

Na prática, para a Lua Cheia, essa ilusão de óptica consegue produzir um efeito de tamanho aparente mais contundente do que o da Superlua que se resume a um aumento de tamanho aparente de apenas 14%. Já o brilho ''turbinado'' de uma Superlua garante um luar muito mais intenso, com ganho de até 30%.

Resumindo

Existe, de fato, uma Superlua? A resposta é sim e não! E não estou querendo ficar em cima do muro. Escrevi bastante hoje para justificar essa resposta aparentemente evasiva, não é mesmo?

Devemos responder:

  • Sim se entendermos que a Superlua é somente o nome de uma Lua Cheia ''turbinada'' em brilho (ganho de até 30%) e ligeiramente aumentada em tamanho (ganho de até 14%) por conta de sua passagem pelo perigeu, ou seja, como efeito colateral de sua aproximação com a Terra.
  • Não porque, na prática, não há nada de super, exceto o luar mais intenso que, em noites limpas, pode ser um belo fenômeno, especialmente bem longe da poluição luminosa das grandes cidades. Mas bastam nuvens densas para destruir o super brilho e ofuscar o luar.

Dá para dizer, sem medo, que Superlua é um nome um tanto quanto exagerado! Você jamais vai ver uma Lua Cheia gigantesca no céu. Não tem como! É fisicamente impossível! Mas é mais chamativo o termo Superlua do que Lua Cheia no perigeu. Logo, mais ''marqueteiro'', o termo Superlua ajuda a nós divulgadores científicos a chamar mais pessoas para observar a Lua e, de carona, todo o céu! E isso é sempre SUPER interessante. 

Apesar do exagero, vale a pena a pena observar a Lua Cheia no perigeu também chamada de Superlua? SIM! Sempre vale a pena observar o céu e, em especial, a Lua. Mesmo uma Lua Cheia no apogeu, numa noite limpa, é espetáculo garantido. Se estiver no perigeu, tudo tende a melhorar!

Hoje, 14 de novembro, anda dá para pegar carona na ''quase'' Superlua que já passou um pouco do perigeu e está com o seu disco um pouquinho menos iluminado. Mas isso só vale se o céu estiver bem limpo. Aqui na minha cidade, São João da Boa Vista, interior de São Paulo, chove há dias. E o céu está totalmente fechado e não haverá Superlua que vença as nuvens densas que cobrem o firmamento.

A Superlua vai nascer ali... mas as nuvens...

A Superlua vai nascer ali, à esquerda das duas antenas. Mas as nuvens… (panorama, quase 180 graus,
da minha janela, pelo celular).


1.  Na verdade a Lua reflete a luz solar.
2. Cuidado com o título da matéria que afirma que a Superlua ''preenche'' todo o horizonte. Exagero! Não é verdade. É o que parece ser. Mas é justamente aí que está a ilusão.

Para ver


Para saber mais


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Duas voltas na Terra. E de carro!
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Terra_raio

 

Você sabe exatamente quão grande é o nosso planeta, a Terra? Uma maneira didática de tentar imaginar o tamanho da Terra, aproximadamente esférica, é pensar na medida do seu raio r =  6371 km, valor obtido no plano do equador. Nosso planeta, você deve saber, é ligeiramente achatado nos pólos. Se medíssemos o seu raio numa direção que passasse pelos pólos, encontraríamos um valor um pouco menor.

Uma bola oficial de futebol, para comparação, tem aproximadamente 22 cm de diâmetro, ou seja, raio r = 11 cm. Precisaríamos enfileirar aproximadamente 58.000.000 de bolas de futebol (tamanho oficial) para obter distância equiavalente ao diâmetro do nosso planeta.

Você se lembra como é possível calcular o perímetro (ou arco completo) L de uma circunferência? Basta fazer a conta L = 2.π.r onde r é o raio da circunferência e π, de valor aproximado 3.14, o famoso número pi.

Usando essa ideia, a circunferência (ou perímetro) da Terra, no plano do equador, vale L = 2.π.r = 2 x 3,14 x 6371 que dá, aproximadamente, 40.000 km.

Lembrei-me disso ontem quando meu carro, que tirei zero quilômetro da concessionária, completou 80.000 km. Veja a prova logo abaixo em imagem que eu mesmo fiz, parando o carro com segurança no acostamento da estrada para registrar o exato momento!

Bravo_80000km

Hodômetro do meu carro registrando 80000 km rodados (ou ''duas voltas na Terra'')

 

Achou exagerada a importância que dei à marca a ponto de considerá-la digna de foto? Explico. Se pensar bem, desde que comprei meu carro zero, já andei com ele 80.000 km, o dobro de 40.000 km. Na prática, é como se eu tivesse dado duas voltas completas na Terra sobre a linha do equador. Pensando assim, completar 80.000 km foi ou não foi um momento ''histórico''?

Antes que você diga que isso é coisa de físico, ratifico que é mesmo! Tanto é verdade que, quando ''dei a primeira volta na Terra'' com meu carro, fiz equivalente registro fotográfico do hodômetro do veículo mostrando a marca de 40.000 km e escrevi um post aqui no blog. Se comparar as duas fotos, vai ver que curiosamente as duas marcas foram feitas praticamente no mesmo horário (6:38 e 6:40). E foi na mesma estrada, subindo a serra para lecionar em Poços de Caldas, MG. Mas isso eu deixo para os numerólogos ''explicarem''.

E você? Quantas voltas já deu na Terra com o seu carro? Deixe o seu comentário.


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Outra imperdível oficina de Física no IFGW/Unicamp
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XXXVII_Oficina_IFGW

Cartaz do evento

 

No próximo dia 19 de novembro de 2016, sábado, acontece a XXXVII Oficina de Física ''Cesar Lattes''.

O evento, que ao chegar em sua 37ª edição ratifica que já virou tradição no IFGW – Instituto de Física ''Gleb Wataghin'' da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas, destaca-se pelo elevado nível das atividades que atraem um público diversificado e sempre muito interessado em Física e que vai desde estudantes do ensino médio até alunos de graduação e pós graduação em Física além de profissionais de educação básica e superior, dentre outros interessados em atualizar o seu conhecimento na área.

Tratando sempre de assuntos ''quentes'' e atuais, eu diria que desta vez o prof. Dr. Mario Bernal, organizador do evento, foi extremamente feliz e escolheu um tema no mínimo instigante: ''Resolução de problemas complexos de Física usando Matemática elementar''.

Já fi minha inscrição! Vem comigo? Será um delicioso sábado de muita Física! Na Veia!

Confira mais informações no site do evento onde você pode fazer a sua inscrição on line. E logo abaixo a programação completa.

Programação

Local: Auditório do IFGW
PalestranteTema – AtividadeHorário
Entrega de Material08:00 – 08:30
Abertura08:30 – 08:40
Prof. Maurício Kleinke
(IFGW-UNICAMP)
Protocolos para Resolução de Problemas: Limites e Aplicações08:40 – 09:30
Perguntas e discussões09:30 – 09:45
Intervalo para Café09:45 – 10:15
Prof. Alexandre da Fonseca
(IFGW/UNICAMP)
Física Básica na Pesquisa Científica: resposta mecânica
de nanomolas de carbono
10:15 – 11:05
Perguntas e discussões11:05 – 11:20
Prof. Luiz Zagonel
(IFGW/Unicamp)
Desenho de um sistema ótico para pesquisas em
nano-materiais
11:20 – 12:10
Perguntas e discussões12:10 – 12:25
Intervalo para Almoço12:25 – 14:00
Prof. José Lunazzi
(IFGW/UNICAMP)
Resolvendo problemas sem cálculo diferencial e integral,
mas indo em direção a ele, sem deixar que o bosque
esconda a árvore
14:00 – 14:50
Perguntas e discussões14:50 – 15:05
Intervalo para Café15:05 – 15:30
Prof. Mario A Bernal
(IFGW/UNICAMP)
Desenvolvendo a intuição em Física resolvendo problemas15:30 – 16:20
Perguntas e discussões16:20 – 16:35
Encerramento16:35 – 16:40

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O Brasil é campeão na OLAA 2016
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

OLAA2016_equipe_BR

Beatriz, Mateus, Lucas, Nicolas e Henrique, os jovens estudantes brasileiros que venceram a VII OLAA que aconteceu na Argentina

 

Aconteceu na Argentina, na cidade de Córdoba, entre 2 e 8 de outubro de 2016, a VIII OLAA¹ – Olimpíada Latino-Americana de Astronomia e Astronáutica.

Sabe que país venceu a competição? BRASIL! Sim! Nosso país ficou em primeiro lugar no quadro geral de medalhas com duas de ouro, duas de prata e uma de bronze.

Trouxeram as medalhas de ouro os estudantes Henrique Barbosa de Oliveira (de São Paulo, SP) e Mateus Siqueira Thimóteo (de Mogi das Cruzes, SP). Lucas Camargo da Silva (de Florianópolis, SC) e Nicolas Almeida Verras (de São Paulo, SP) conquistaram a prata. E Beatriz Marques de Brito (de São Paulo, SP) faturou o bronze. Liderando a equipe brasileira estavam os astrônomos Dr. João Canalle (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ) e Dr. Júlio Klakfe (Universidade Paulista, UNIP).

Mas as conquistas não pararam por aí! Beatriz e Lucas também foram premiados por terem feito a melhor prova observacional e ganharam, cada um, um telescópio. Beatriz ainda venceu outro prêmio, sendo eleita a melhor companheira, o que lhe rendeu um galileoscópio, pequena luneta inspirada na histórica luneta de Galileo que em 1609 deu início às observações astronômicas com instrumentos.

O Brasil, que participou das oito edições do evento, com esse incrível resultado atingiu a marca de 22 medalhas de ouro, 15 de prata e 3 de bronze.

Parabéns aos líderes da equipe brasileira! E parabéns ao quadrado aos cinco jovens estudantes (Beatriz, Mateus, Lucas, Nicolas e Henrique) que defenderam o nome do nosso país com muita competência!

Como está formatada a OLAA

As provas da OLAA exploram tanto o conhecimento teórico quanto o prático.

A prova teórica foi realizada em duas partes: individual e em grupo. E sempre mesclando as delegações. Na parte prática os estudantes participaram de uma competição de lançamento de foguetes em grupos multinacionais e foram avaliados individualmente em provas observacionais que exigiram o reconhecimento do céu real e o manuseio de telescópio. 

Objetivos da competição internacional

Segundo o Dr. João Batista Garcia Canalle, vice-presidente da OLAA – Olimpíada Latino-Americana de Astronomia e Astronáutica e coordenador da OBA² – Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, a olimpíada científica internacional promove o intercâmbio de conhecimento entre os alunos e também a troca de experiências didáticas entre os professores que lideraram os grupos. ''Por meio de iniciativas como a OLAA, desejamos unir as nações, fomentar e popularizar a astronomia e a astronáutica entre os países participantes e despertar o interesse nos jovens pela astronomia e pelas ciências espaciais”.

Vale destacar que a OLAA é a única modalidade internacional a realizar provas em que alunos de diferentes países são avaliados também em grupos multinacionais com o propósito de mostrar aos participantes que a ciência atual é feita em cooperação, ou seja, em grupos e por pessoas de diferentes países. Também merece destaque o fato de que a OLAA é a única olimpíada que obriga que os grupos sejam de ambos os gêneros. 

 

Treinamento e seleção

Aqui no Brasil, os melhores estudantes de astronomia do ensino médio são anualmente selecionados numa ''primeira peneira'' pela pontuação obtida na OBA. Os melhores classificados são então convidados para um treinamento no estilo EAD (ensino à distância) em plataforma gerenciada pelos organizadores da competição nacional.

Nesta plataforma os estudantes fazem um simulado para ''aquecer os motores'' e, em seguida, sempre em constante treinamento com material didático próprio e escrito por um time de astrônomos profissionais, passam por de três provas online.  No final do processo, os melhores estudantes de cada estado passam por uma bateria de provas presenciais em diversas sedes nacionais espalhadas pelo território nacional.

Por fim, os vencedores dessa maratona nacional de treinamento e avaliações que dura alguns meses são então convocados para uma outra etapa de treinamento intensivo com astrônomos e especialistas. Normalmente essa etapa ocorre na cidade de Vinhedo, no interior de São Paulo, junto ao Observatório Astronômico Abraão de Morais que pertence ao IAG – Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP – Universidade de São Paulo.  A programação costuma ser dividida em grupos de estudos, oficinas de atividades e observação do céu noturno, com e sem instrumentos, além de atividades de resolução de exercícios, realização de provas simuladas, e a construção e lançamentos de foguetes ''caseiros'' feitos de garrafas PET.

Em 2016 os estudantes da equipe brasileira contaram com o Planetário Digital Móvel da OBA para estudar o céu por meio de projeções. E ainda aprenderam a montar e a manusear dois tipos de telescópios.

Meus alunos campeões da OBA 2016

OBA_2016_Anglo-SJ_campeoes

Meus alunos campeões medalhistas das OBA 2016

 

Meus alunos participam da OBA desde sempre. Em 2016, no colégio Anglo São João, em São João da Boa Vista, interior de SP, temos oito estudantes do ensino médio medalhistas nessa importante competição estudantil brasileira e pré-selecionados para participar do treinamento e seleção à distância.

Como explicado mais acima, desse treinamento e seleção sairão os melhores estudantes que vão defender o Brasil nas olimpíadas internacionais de astronomia, incluindo a OLAA que, em sua nona edição, terá como sede o nosso vizinho Chile.

Confira abaixo os nomes dos medalhistas que deixaram esse velho professor super orgulhoso!

OBA_2016_Anglo-SJ_campeoes_poster

Leandro, Anael, Bruna, Guilherme, Mateus, Thaís, Vitor e Frank

 

Na imagem acima você confere os medalhistas do Anglo São João:

  • Leandro | primeira série do ensino médio | medalha de bronze
  • Anael | segunda série do ensino médio | medalha de prata
  • Bruna | segunda série do ensino médio | medalha de prata
  • Guilherme | segunda série do ensino médio | medalha de prata
  • Mateus | segunda série do ensino médio | medalha de prata
  • Thaís | segunda série do ensino médio | medalha de prata
  • Vitor | segunda série do ensino médio | medalha de prata
  • Frank | terceira série do ensino médio | medalha de prata

 

Parabéns Leandro, Anael, Bruna, Guilherme, Mateus, Thaís, Vitor e Frank! Torço muito para que em 2017 vocês possam estar selecionados para compor a equipe vai defender o Brasil no Chile e também noutras competições internacionais! #TamoJunto


(1) Fundada na cidade de Montevidéu, Uruguai, a OLAA acontece desde 2009 e é coordenada por astrônomos de vários países da América Latina.
(2) A OBA é coordenada por uma comissão formada por membros da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira e da AEB – Agência Espacial Brasileira.

Para saber mais

  • Conheça as provas (resolvidas) de todas as edições da OBA.

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Cesar Lattes: “Linha do tempo científica”
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Lattes_Gardner

César Lattes e Eugene Gardner ao lado do sincrociclótron de 184 polegadas na Universidade de
Berkeley (EUA). Nesse acelerador a dupla produziu os primeiros méson artificiais da história no início
de 1948. Fonte: CBPF

 

Acontece na próxima segunda-feira, 10 de outubro de 2016, às 9 h, no auditório do DRCC – Departamento de Raios Cósmicos e Cronologia do IFGW – Instituto de Física ''Gleb Wataghin'' da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas, cerimônia de homenagem ao Professor (Dr)¹ Cesar Lattes.

Na ocasião será inaugurado o painel ''Linha do tempo científica'' do prof. Cesar Lattes.

Para quem estiver longe de Campinas, SP, mas tiver interesse no assunto, haverá transmissão ao vivo pela RTV Unicamp em www.rtv.unicamp.br.

E, se você ainda não conhece a incrível história do cientista brasileiro ''quase'' Nobel de Física, siga os links abaixo. Você vai descobrir que chamar de incrível a vida do prof. Lattes não é exagero algum!


1 – Sempre vale lembrar que Cesar Lattes gostava de ser chamado de professor em vez de doutor.


Para saber mais

  • Um Cientista, uma história: Cesar Lattes – episódio 12 da série em animação produzida em parceria entre o SESI e o Canal Futura e que conta a vida de 30 cientistas brasileiros que se destacaram. Aproximadamente 5 min.
  • Cientistas Brasileiros – Cesar Lattes e José Leite Lopes – documentário em vídeo com aproximadamente 55 min]
  • Breve Histórico de Cesar Lattes – no site do CBPF – Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas

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Reforma do Ensino Médio: parecer oficial da SBF
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Einstein_MP746

 

Até agora não me manifestei oficialmente aqui no blog sobre a MP 746/2016 — medida provisória do governo federal de 22 de setembro de 2016 e que propõe reforma no ensino médio.

Além do pouco tempo que tenho tido para blogar, fiquei profundamente triste e abatido com a proposta. E fui tomado pela sensação de impotência diante da (quase) certeza de que mais uma vez vão passar uma rasteira na educação. Que coisa!

Com quase trinta anos de sala de aula, como autor de material didático desde os anos 90, como divulgador científico há mais de uma década, já bastante enraizado profissionalmente com a educação¹, não consigo entender como possam ser ignoradas as medidas tão óbvias que cedem lugar àquilo que me parece tão somente uma tentativa burocrática, de gabinete, para reinventar a roda que já começa a dar sinais de que vai acabar ficando quadrada!

Vou respirar mais um pouco. Oxigenar o meu cérebro. E me acalmar. Desentristecer. Adiante prometo publicar minha contribuição pessoal para as discussões prévias que deveriam nortear a tão necessária e importante reforma do Ensino Médio que, de cara, jamais poderia vir numa mera canetada ''emergencial'' que mais tem jeitão de tentativa vazia de mostrar serviço!

Mas reproduzo abaixo o parecer oficial da SBF – Sociedade Brasileira de Física sobre o tema publicado ontem no site da instituição. Vale a pena pela importantíssima reflexão.

Se você se preocupa com a educação, por gentileza, divulgue esse post! E deixe o seu comentário sobre o tema, especialmente se você é professor ou algum profissional diretamente ligado à área da educação.


NOTA PÚBLICA DA SBF SOBRE A MEDIDA PROVISÓRIA DO ENSINO MÉDIO (MP 746/2016)

Acontece na SBF, semana de 06 de outubro de 2016

A Sociedade Brasileira de Física vem a público manifestar preocupação quanto à Reforma do Ensino Médio por meio de Medida Provisória encaminhada ao Congresso Nacional. Reconhecemos a necessidade e urgência de reforma. Entretanto, por também reconhecer a complexidade do tema e a necessidade de construir, por meio de debate público qualificado, elementos para a sustentação de mudanças efetivas e eficazes, entendemos que tal questão não deve ser apreciada em caráter de Medida Provisória.

Consideramos que aspectos da MP 746 atentam contra os objetivos preconizados, quais sejam, a ampliação do tempo de escolarização e a necessidade de se pensar um Ensino Médio que seja atraente, flexível e atenda aos interesses e demandas de formação dos estudantes.

Dentre eles, destacamos:

  1. A MP estabelece como condição para exercício da docência “trabalhadores em educação, portadores de diploma de curso técnico ou superior em área pedagógica ou afim” e, para a parte técnica do currículo, outros profissionais, que, mesmo sem ter a qualificação profissional requerida, “detenham notório saber”. Assim, em lugar de indicar ações efetivas para formação de professores e estímulo à entrada e permanência na carreira, a MP apenas legitima  a precarização hoje existente  – segundo o censo de 2015, quase 40% dos professores em exercício não tem formação adequada para as disciplinas que lecionam. No caso da Física, esse número é de 68,7%. A SBF reafirma a necessidade de fortalecer a formação de professores com cursos de licenciaturas específicas nas áreas de conhecimento e condições de trabalho e carreira que tornem a profissão atraente.
  1. A MP reduz o componente de formação geral, destinada aos conteúdos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), das atuais 2400 horas para  1200 horas. Ou seja, a formação geral, cultural e científica dos estudantes é reduzida pela metade e não ampliada, como se anuncia. O tempo restante se volta para uma preparação para o  mercado de trabalho, sem qualquer alusão a outro princípio educativo. Não há espaço, no novo Ensino Médio anunciado, para formação ética, estética e científica dos estudantes. A ampliação referida pela MP é da carga horária anual mínima fomentando a implementação das Escolas de Ensino Médio em tempo integral.
  1. A proposta não estabelece a obrigatoriedade de oferta dos componentes curriculares em todas as escolas ou sequer de todas as áreas de conhecimento. A flexibilização pretendida não pode privar os estudantes do acesso ao conhecimento, como na prática poderá ocorrer com o Novo Ensino Médio anunciado.  A proposta estabelece como única obrigatoriedade da escola a oferta de Matemática, Língua Portuguesa e Língua Inglesa. Assim, escolas poderão simplesmente abolir a oferta de componentes como Física, Química, Sociologia, Filosofia, História, Artes, Educação Física, Biologia…  A gravidade desse fato dispensa maiores comentários.
  1. A MP não menciona aspectos fundamentais para um projeto de reforma do Ensino Médio tais como:
    a)  Ações e diretrizes para formação de professores e valorização da carreira docente.
    b)  Condições materiais e organizacionais para que as escolas possam oferecer, com qualidade, currículos amplos e diversificados;
    c) Indicações sobre a oferta de Ensino Médio noturno (30% das matrículas atuais);
    d) Indicação de diretrizes para projetos de escola integrada ou de tempo integral ou indicação de legislação complementar a este respeito. O projeto parece desconhecer as avaliações de políticas públicas e projetos em andamento em vários estados e munícipios brasileiros.
  1. A MP menciona a BNCC que, entretanto, não está ainda regulamentada. Os princípios da BNCC,  que constam no texto aprovado após consulta pública,  não estão sendo considerados. Do mesmo modo, a  extensão de conhecimentos propostos na BNCC são incompatíveis com as 1200 horas anunciadas.

Por esta razão, a SBF vem a público se manifestar contra a forma e os termos com que foi apresentada a Reforma e recomenda a retomada, em caráter de urgência, das discussões sobre um Projeto de Lei de Reforma do Ensino Médio brasileiro, com amplo debate com a sociedade e qualificada participação de especialistas e entidades científicas.


1-Não me entenda mal! Não me coloco (de forma arrogante) como dono da verdade! Mas apenas como alguém que respira educação há algumas décadas e, tentando acertar, sempre, conhece o problema (e algumas soluções) bem de perto. Certo?

 

Para saber mais

Matérias do UOL Educação

 


Nobel de Física 2016: as fases exóticas da matéria
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Prof. Dulcidio Braz Júnior

Nobel_2016

David J. Thouless, F. Duncan M. Haldane e J. Michael Kosterlitz. Fonte: NobelPrize.org

 

Saiu hoje, 4 de outubro, o Nobel de Física¹ 2016. Apostei no pessoal do LIGOLaser Inteferometer Gravitational-Wave Observatory e a incrível (e inédita!) detecção das ondas gravitacionais (saiba mais nesse post). Errei! O tema premiado foi o estudo das transições de fase da matéria e seus estados exóticos usando Topologia, ramo avançado da matemática, evolução da Geometria, que descreve as propriedades de um objeto que permanecem intactas quando o próprio objeto é esticado, torcido ou deformado, sem no entanto ser dilacerado.

Três cientistas britânicos — mas que atuam em universidades americanas — dividiram o prêmio de pouco mais de R$ 3 milhões: David Thouless da Washington University (1/2 do prêmio), Duncan Haldane da Princeton University (1/4 do prêmio) e Michael Kosterlitz da Brown University (1/4 do prêmio).

Convivemos — e por isso mesmo estamos acostumados — com a matéria em apenas três fases ou estados clássicos: o sólido, o líquido e o gás.  Mas, se a temperatura da matéria sobe bastante, o grau de agitação dos átomos e moléculas fica muito elevado e passamos a ter o estado conhecido como plasma. Se a temperatura abaixa para valores próximos do Zero Absoluto, o zero da escala absoluta Kelvin, podemos atingir o estado conhecido como  Condensado de Bose-Einstein, um condensado quântico no qual todos os átomos, exauridos da energia térmica, encontram-se no mais baixo estado quântico, comportando-se como se fossem juntos um só átomo gigante, evidenciando macroscopicamente o comportamento quântico da matéria.

Nobel_Fisica_2016__01

Estados clássicos da matéria e seus extremos exóticos

 

Nos extremos de temperatura, muito alta ou muito baixa, temos os estados exóticos, de comportamento bastante peculiar.  Entender a fundo como a matéria se comporta nesses estados pode ser o caminho para criar novos materiais e com características bastante diferentes. Segundo o comitê  organizador do Nobel, ''na última década, essa área do conhecimento impulsionou pesquisas de ponta em física da matéria condensada. Os físicos esperam poder usar os materiais topológicos em novas gerações de dispositivos eletrônicos e supercondutores, além de abrir caminho para o futuro desenvolvimento de computadores quânticos. As transições de fase topológica da matéria abrem portas para um mundo desconhecido onde a matéria pode assumir estados estranhos''.

Mas note aí: as ondas gravitacionais vão levar o Nobel de Física. Em breve.


1 – Soube da premiação de Física no meu horário de almoço. Às terças leciono em Poços de Caldas, MG, a manhã toda e parte da tarde. Somente agora, ao final da tarde, ao voltar para casa( e antes da terceira jornada de aulas à noite) pude saber mais detalhes sobre as pesquisas e cientistas laureados e escrever algo sobre o tema. Quero me aprofundar mais oportunamente!

Para saber mais


Já publicado aqui no Física na Veia!

Confira os posts do blog sobre os trabalhos dos laureados com Nobel de Física desde 2006.

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